A verdade é que nasci em Lisboa há séculos e nunca, nunca fui a uma festa lisboeta dos Santos Populares. Pode parecer impossível, mas é a pura das verdades.
Quando era novo não vinha do lado de Almada, onde morava, para Lisboa já que na cidade de Frei Luís de Sousa também havia festividades. Não é o Santo Padroeiro da capital mas é o S. João.
Depois de casado também nunca encontrei o chamamento para me embrenhar em ruas e ruelas apinhadas de gente, na maioria alccolizados, onde uma sardinha custa os olhos da cara e onde me arriscaria a sair sem carteira.
Por tudo isto e provavelmente muitas outras coisas que não sei identificar é que se passou mais um Santo António e eu em casa.
Há uns anos fui passar férias ao Algarve, como qualquer bom português que se preze.
Os meus miúdos eram pequenos, a escola havia acabado e o preço do alojamento mais barato. Assim aproveitei o final de Junho e início de Julho para gozar 15 dias de férias no "reino dos Algarves".
Cheguei a um sábado e logo nesse dia tentei inteirar-me da logística do local no que respeita a refeições já que estava preparado para confeccionar no apartamento.
Soube que o pão era vendido à entrada do empreendimento turístico de manhã cedo. No dia seguinte que era Domingo e levantei-me para ir buscar o dito pão. Ao portão encontrei diversas pessoaas que aguardavam também o padeiro.
O dia acordou sombrio, triste, cinzento. Se bem que não estivesse frio, estranhei aquela frescura da manhã. A carrinha apareceu e lá comprei o pão que achei suficiente. Mas tive de perguntar maiss a brincar que a sério:
- Mas que tempo é este aqui no Algarve? Vem uma pessoa de tão longe para passar férias ao Sol e apanha este tempo.
O padeiro teve logo resposta:
- Isto é a brandura do S. Pedro que é para apanhar os tremoços.
E partiu sem dizer mais nada.
Como sei a forma de colher os tremoços percebi automaticamente aquelas palavras.
Curiosamente lembrei-me este fim de semana, daquelas palavras algarvias, tal esteve o tempo por aqui!
Só que desta vez a brandura não foi do S. Pedro mas do S.João!
Lembro-me como se fosse hoje o que eram os Santos Populares no meu tempo de juventude: fogueiras na rua… alegria… balões… gente que passeava calmamente, rindo e brincando.
Hoje os mesmos Santos Populares comemoram-se em restaurantes típicos com sardinhas a preços que nem a tróica aprova. Depois há os carteiristas, que no meio da confusão de tanta gente nas estreitas ruas vão rapinando mais carteiras que o Estado nos retira em impostos todos os dias.
Ainda me recordo dos miúdos a pedirem um tostão para o Santo António tal qual como no filme O Pátio das Cantigas com Vasco Santana.
Adorava de voltar a sentir esse tempo e essa sensação de… liberdade, não obstante vivermos em tempo de ditadura. Hoje que vivemos supostamente em completa liberdade, tenho medo de sair à rua mais que uma certa hora. Ando no Metro sempre receoso de chegar à estação sem a carteira ou o telemóvel.
Nos restaurantes de antigamente de bancos corridos e toalhas de plástico aos quadrados, vinham os pratos para a mesa mal lavados e nós com os guardanapos acabávamos por limpar o resto. Ninguém morria por isso e até a comida sabia melhor…
Actualmente temos autoridades, que ainda não sei bem se já fizeram alguma coisa, que não fosse prejudicar quem anda a lutar pela vida de forma honesta. Eles são toalhas de papel, copos todos especiais, condições para a cozinha tal e qual um restaurante fino.
Por tudo isto já não saio de casa.
Para quê? Pelo menos cá dentro a ASAE não põe os pés.