Acrísio acorda cedo. Há muitos anos que não tem sono e por isso não teima em rebolar na cama que já foi de dois e agora é só dele.
Toma banho, rapa a barba, veste a roupa que a empregada na tarde anterior lhe deixa preparada, vai à cozinha e prepara com calma o seu pequeno almoço.
Tem 75 anos, mas ainda conduz. A carta de condução tirou-a ainda no tempo “da outra senhora” quando aqueles “engenheiros” passavam cartas por um punhado de contos de réis. Que ele gabava-se de nunca ter pago.
Desce até à rua as escadas da moradia onde vive e dirige-se ao seu velho, mas estimado automóvel estacionado em cima do passeio obrigando os peões a desviarem para a estrada.
Arranca depressa, mas ao fim da sua artéria tem de parar por causa de uma passadeira. Barafusta com veemência a lentidão de uma mãe que leva pela mão o filho de terra idade.
Sai do bairro e entra no centro da cidade. Todavia sempre que há uma passadeira e ele tem de dar prioridade, refila:
- Esta malta julga que é dona da estrada. Cambada…
Encontra com sorte um lugar em espinha e estaciona. Com a calma que normalmente não o caracteriza sai da sua viatura, fecha o carro com todos os preceitos e vai ao seu destino ou destinos.
O primeiro é o Café Luar de Noite onde é recebido com um sonoro:
- Bom dia, Acrísio. Vai um café?
- Bom dia… venha de lá esse menino. Mas sem açúcar.
Café tomado e já na calçada branca vai à papelaria.
- O jornal se fizer favor e uma raspadinha.
Recebe, paga e sai.
Mesmo defronte do estabelecimento há uma passadeira para a qual ele se atira sem receio. Uma carrinha de entregas trava bruscamente para não o atropelar opriginando que o carro de trás se enfie na traseira. Acrísio segue oseu caminho mas antes olha para o acidente e não percebe porque todos apontam para ele. Como se ele fosse culpado.
Sorri dos seus pensamentos no mesmo instante que entra descuidado numa faixa vermelha onde uma trotinete lhe dá um valente encontrão atirando-o por terra. O condutor aguenta-se sen cair e segue o caminho. Acrísio vocifera:
- Energúmeno… os passeios são para os peões, imbecil. Não te ensinaram isso?
Rapidamente se levanta sem qualquer ajuda e quase sem mácula. Era para ir ao páo porém decide regressar a casa para estacionar a sua viatura novamente em cima do passeio obriganddo os peões a irem para o alcatrão..
É que a garagem foi transformada, há muitos anos, numa bela cozinha que nunca usou!
Nota: qualquer semelhança com a realidade não é coincidência!
Percebo pouco ou nada dos jogos de bastidores da política.
Percebo pouco ou nada de como se convence alguém a votar num determinado partido.
Percebo pouco ou nada dos verdadeiros interesses que os nossos deputados têm para lá da política.
Percebo pouco ou nada de como alguns lideres acreditam no que dizem.
Posto tudo e perante toda esta minha iliteracia política, prevejo, ainda assim, que as próximas eleições irão mostrar quão longe está o país político do país real!
A juventude será talvez a melhor fase da vida do ser humano. Por três simples ordens de razão.
A primeira inside na ideia de que na juventude ninguém morre ou se tal ocasionalmente acontece é porque, de qualquer maneira, não foi esperto para escapar à dita. A segunda prende-se com o sentido de que a juventude conhece tudo da vida e que por isso são muito mais inteligentes que os mais velhos que andam a vida toda para perceber os meandros desta. A terceira razão assente na postura de que os mais velhos, sejam eles pais, avós, tios, primos ou professores não percebem nada de nada.
Ora se somarmos a estas razões o avanço tecnonógico a que a juventude tem hoje acesso quase ilimitado tudo hiperboliza.
Todavia há sempre um detalhe que escapa e com o qual ninguém na juventude conta e que se chama... realidade.
Pois bem... há muitos anos uma jovem de 17/18 anos estava mais umas amigas à espera de um táxi numa praça de Lisboa quando um tipo em excesso de velocidade se despitou e foi colher as jovens no passeio. Seriam três da madrugada.
A jovem a que me refiro foi a que ficou pior, dando entrada no Hospital de Santa Maria. Na altura não havia telemóveis (ah pois é... eu sou desse tempo!) e só de manhã a mãe, que era médica, soube do acidente.
Não obstante a gravidade do desastre a jovem acabou por recuperar das mazelas, mas não do tempo. Um dia ela confidenciou que o acidente tivera o condão de a acordar para uma outra visão da vida. Aquilo que até àquela noite era uma certeza adquirida, de um momento para o outro passou a ser uma dúvida.
As festas programadas, os exames previstos e até as férias desejadas deixaram de ser importantes. Porque nesta caminhada que estamos todos a fazer haverá sempre impoderáveis que nunca, repito nunca controlamos. Tenhamos a idade que tivermos...
Também já fui jovem. Há tanto tempo que já quase esqueci essa altura, mas ainda hoje recordo aquela noite (teria 19 anos) em que tive, sozinho, de decidir sobre a minha vida futura!
Ai o que me doeu... o que sofri... as dúvidas que abracei!
Mas antes assim... porque depois desta decisão foi sempre muito mais fácil... E mais ponderado!
Nota final: este texto é dedicado a uma jovem que hoje é aniversariante. Não pretendo influenciar a sua vida futura (longe de mim!!!), somente que fique bem mais atenta ao que a rodeia! Por vezes basta!
O ser humano tem uma enorme dificuldade em lidar com a realidade, seja esta fantástica ou dolorosa.
Desculpamo-nos quase sempre com a ideia de que a cabeça quer uma coisa e o coração manda outra. Curiosamente comentei num blogue de uma amiga a propósito desta dicotomia. Mas não esclarecendo tudo ficou a ideia ficou a moer.
Durante o dia de hoje não tive tempo para pensar, mas chegada a noite é o momento para dissertar sobre a maneira como lidamos com a realidade contra o sonho que um dia idealizámos.
Todavia serei breve!
A realidade pura e dura nunca é simpática nem doce. Mas há que saber aceitar e perceber que sem o banho de realidade, provavelmente viveríamos num Mundo quase abstracto. Os sonhos devem ser sempre sonhados e assumidos, mas mais tarde plasmados na tal realidade com que vivemos todos os dias.
O amor, a paixão são dois dos sentimentos muito comuns nas assumpção das diferenças entre realidade e sonho. Poderemos amar alguém ao mesmo tempo que percebemos que esse amor será destrutivo. Deveremos continuar a amar? Ou acrescentar mais uma desilusão ao coração?
A idade que vamos somando tem uma natural tendência para polir as nossas dúvidas e clarificar o que vamos vendo. O problema é que na maioria das vezes não gostamos nada do que testemunhamos e preferimos continuar a caminhar por um trilho que nos poderá destruir interiormente.
Depois quando tudo acontece não poderemos dizer que "tive azar"...
Não obstante ser uma pessoa bem disposta, por natureza e filosofia de vida, também há dias que me apetece enfiar a cabeça num buraco e não sair de lá.
Mas depois pergunto-me: de que serviria? O problema provavelmente estaria lá na mesma quando saísse do dito buraco.
Portanto … o melhor mesmo é armar-me em toureiro ribatejano e pegar o toiro pelos “ditos cujos” e tentar resolver as coisas. Seja a bem, seja a mal.
Todos temos momentos menos iluminados na nossa vida, mas não é por isso que devemos parar de caminhar no trilho que aquela nos apresenta. Se não temos luz natural para caminhar usemos uma lamparina, lanterna, gambiarra. Da mesma forma que no inverno saímos e entramos em casa de noite, no Verão é sempre dia. Portanto há que seguir em frente… custe o que custar!
Justamente esta pandemia, que nos obrigou a confinamentos e limitações impensáveis veio mostrar quanto de nós vivíamos longe da nossa realidade interior.
Seria bom que tomássemos consciência daquela, de forma a evitar desequilíbrios e angústias futuras!