Tenho pelo direito à greve o maior dos respeitos. Não sei se é resquícios da minha costela proletária... mas enfim reconheço que a greve bem estruturada e pensado pode servir para os trabalhadores conseguirem mais proventoss.
Só que em Portugal (e provavelmente noutros países) a greve ao trabalho pode ser, e é muitas vezes, instrumentalizada por sindicatos reféns de algumas forças políticas. A greve faz-se não por justas regalias mas porque serve de arma contra os diferentes governos.
Peguemos num pouco da história dos últimos anos e veremos que logo a seguir ao 25 de Abril os sindicatos abriram diversas bravatas contra o patronato usando como arma de arremesso a greve. Muitas empresas acabaram por sucubir outras aguentaram-se com maior ou menor dificuldade. E até ao 11 de Março de 1975 as greves sucediam-se em todos os sectores, deixando o país completamente sem rumo e sem capacidade de resposta.
Só que com a ascensão ao poder da esquerda personalizada no General Vasco Gonçalves originando o conhecido Verão Quente de 1975 alimentado pelo PREC, acabou por criar a ideia de que a greve deixaria de ter o valor que sempre lhe haviam atribuído. Recordo os cartazes colados nas paredes pela mesma organização que defendia a "unidade sindical" com o slogan "Não à greve pela greve!". Um sinal evidente de que a greve, tantas vezes usada pela Intersindical como forma de luta passava a ter menos valor.
Durante o meu tempo de activo laboral também fiz greve. Fui sindicalizado pelo recentemente falecido Mouta Liz, que era meu colega de trabalho e um ferveroso sindicalista. Certa altura neste caminho de trabalho o Sindicato a que eu pertencia convocou uma greve ao trabalho. No dia anterior à greve fui assediado por alguns colegas para aderir à forma de luta.
Acabei por aderir, mas ao invés de outros saí de casa e estive sempre à porta da empresa desde manhã até à tarde, numa prova que não usara o dia para outra actividade. Fizera greve sim, mas convicto da nossa razão. A verdade é que mais tarde vim a saber que antes da greve o acordo estaria selado entre as partes, mas que aquela forma de luta fora somente um teste à capacidade de mobilização do Sindicato.
Os anos passaram, as politicas laborais alteraram-se e hoje, mais do que nunca, a greve deixou de ter aquele valor de forma de luta por mais direitos, para se tornar uma demonstração de descontentamento político. Paralelamente os sindicatos têm vindo a perder força já que têm cada vez menos sócios o que acaba por enfraquecer as ditas organizações.
Finalmente continuo a pensar que a greve faz sentido desde que estejam todos (leia-se diferentes sindicatos) a lutar pelos mesmos direitos e não cada sindicato a pensar unicamente nas suas próprias demandas.
Independentemente do que os historiadores possam afirmar num futuro próximo ou mais longo para mim o PREC )Periodo Revolucionário em Curso) principiou faz hoje meio século.
Nesse dia em 1975 eu ainda era aluno (que estudante nunca fui!!!) e lembro-me dos aviões militares a rasgarem os céus. Muito longe estava de perceber o que estava a acontecer, politicamente falando, em Portugal.
A nacionalização da Banca, Seguros, transportes e demais empresas importantes gerou uma onda de enorme euforia esquerdista. À frente desta intentona estava obviamente o PCP que acompanhado do MDP/CDE tomavam as rédeas e o controlo económico do País.
Só no ano seguinte no tal dia 25 de Novembro alguns militares mais afoitos conseguiram que o tal controlo fosse mais diluído. O problema é que o mal estava feito e os homens do capital haviam fugido para outras paragens.Só muitos anos mais tarde as coisas compuseram-se, muito contra vontade de um PCP em queda e de uma esquerda mais radical que ainda procurava o seu lugar e espaço na sociedade.
Agora que os anos passaram percebe-se que aqueles não foram bons tempos nem trouxeram fantásticas mudanças ao pobre tecido económico português.
Todavia a partir de hoje, o PREC tornou-se natural e unicamente um mero facto histórico.
Ao que consegui somente hoje perceber, o Presidente da Câmara de Lisboa deseja que haja iniciativas para a comemoração do 25 de Novembro de 1975.
O Verão Quente desse já longínquo ano poderia ter-se tornado ainda mais quente se alguns militares quiçá mais lúcidos e menos políticos, não tivessem percebido o que se estava a gerar na população.
Nessa altura o meu pai comprou até um rádio, creio com onda curta, para escutar uma rádio que tinha uma emissão em Português e que era a conhecida Deutsche Welle. Através desta estação conseguia-se perceber melhor os acontecimentos, até porque a televisão evitava criar pânico popular.
Recordo de ouvir falar de marchas oriundas do Norte a descer até Lisboa e creio terem sido paradas por militares em Rio Maior. Lembro-me das manifestações pela liberdade e contra o Conselho de Revolução na Alameda D. Afonso Henriques, do sequestro do Governo, na altura chefiado por um Comandante da Marinha de nome Pinheiro de Azevedo, de uma série de pequenos e grandes eventos que obrigaram algumas forças militares, nomeadamente para-quedistas e Comandos, a tomaram posições em sítios estratégicos.
Portugal desde o 25 de Abril de 1974 vivia um ambiente frenético, muito próprio deste tipo de golpes de Estado (mais tarde renomeado como Revolução) a que algumas forças políticas chamaram de PREC (Período Revolucionário em Curso).
Nestes 19 meses que distaram Abril de 74 a Novembro de 75, nacionalizou-se a banca, seguros e as maiores empresas do País. A reforma agrária parecia estar em força para no momento seguinte perceber que nem tudo seria um mar de rosas na agricultura.
Destruíu-se também muito tecido empresarial revertendo os custos desta danosa gestão para um Estado que vivia ainda do que vinha de África.
O 25 de Novembro nasce. como já referi, porque alguns militares rapidamente perceberam que Portugal caminhava para uma ditadura à imagem de Cuba. E sendo o nosso país elemento permanente da OTAN (ou NATO), esta eventual possibilidade poderia originar uma guerra civil com contornos políticos internacionais muito preocupantes. Lembro-me de ter atravessado o Tejo num vetusto Cacilheiro e ter notado na quantidade de vasos de guerra estrangeiros fundeados no "Mar da Palha".
Por esta altura eu ainda frequentava o Liceu Nacional de Almada e dei conta de muitas escaramuças pelas ruas da cidade, rapidamente controladas pela intervenção de elementos da Força de Fuzileiros.
Foram tempos agitados, mas ao mesmo tempo de uma rápida aprendizagem e consciencialização política.
A exemplo do que acontecera em Abril do ano anterior e sendo o meu pai militar, logo fui por este avisado para não sair de casa e nem ir à escola nesse célebre dia!
Portanto no 25 de Novembro eu estive em casa... Mas sinceramente é coisa que já não recordo!