Tenho por Lucky Luke uma estima e uma enorme memória.
Viviam-se os conturbados e radicais anos sessenta. Os The Beatles, na música, eram o expoente máximo desse radicalismo que culminaria no celebérrimo Woodstock. E na política seria Maio de 68 que colocaria Paris nas bocas do Mundo.
Por este lado foi por essa altura que recebi o meu primeiro livro de verdadeira banda desenhada. O álbum chama-se “Fora-da-Lei” e foi editado pela Editorial Ibis, já desaparecida. O herói desta aventura chamava-se Lucky Luke e reconheço com humildade que reli esse livro centenas de vezes.
Lucky Luke foi assim o meu primeiro herói de BD. Muito mais tarde viria Astérix e Tintin. Para terem decorridos um ror de anos para conhecer e apreciar Corto Maltese, Red Dust, ou Gaston Lagaffe.
Com capacidade financeira oriunda do meu trabalho consegui lentamente comprar algumas das aventuras de muitos heróis, desde os acima referidos, como muitos outros. Porém o cowboy que disparava mais rápido que a sombra teve sempre lugar de primazia nas minhas escolhas.
Vi Luke perder o cigarro e substituí-lo pela palhinha, como o vi perder o amigo Goscinny e muito mais tarde o pai Morris. Mas ainda assim as aventuras continuaram, sem o fulgor de outrora, mas ainda com alguma graça.
Até que alguém se lembrou de aos 75 anos de “Arizona 1880” (a primeira aventura de Lucky Luke) solicitar a outros desenhadores que falassem do cowboy solitário, através dos seus lápis.
Pelo que sei saíram sete aventuras sendo esta última, que curiosamente recupera o formato do primeiro título alterando apenas o estado de Arizona para Dakota, bem esgalhada.
Esta é, por assim dizer, a prequela da origem do herói americano, resumida em sete estórias recuperando, mais uma vez, outro título antigo.
Gostei deste álbum de pequenas crónicas gráficas. Bons desenhos, boas estórias, fantásticas personagens e aquele final com muita explicação que acaba por conduzir a um outro patamar o nosso herói.
Lucky Luke surge aqui jovem e sem um dos epítetos por que é conhecido, mas lá dentro percebe-se o porquê. O desenho não varia para aquela figura bem nossa conhecida, mas carrega um certo peso que lhe dá quase autenticidade.
Finalmente um bom livro começa com um bom texto e a entrada deste não poderia ser melhor obrigando-nos a buscar sempre mais.
Ler tudo tornou-se muito fácil e no fim ficou aquele gosto amargo: já acabou?
Hoje foi dia de ir à dentista. Levantei-me cedo, tomei o pequeno almoço em casa, lavei os dentes e segui para a estação de Metro de carro.
O trânsito desenrolava com alguma fluidez e cheguei rápido ao parque de estacionamento. Peguei na carteira e no porta moedas e dirigi-me à estação. Comprei bilhete e entrei na plataforma. Olhei o monitor que indicava três minutos para o próximo comboio.
Comecei então a auto apalpar-me em busca de algo (conhecem a sensação, não conhecem?) para rapidamente perceber que o telemóvel, esse danado aparelho que não me deixa descansado, ficara no carro.
Bom... pelo menos tinha um livro uma bela estreia e bom que ele é...
Desci à baixa pombalina, onde tratei de umas coisas, voltei ao Metro tendo saido no Marquês de Pombal e daí fui a pé à consulta. Uma hora depois estava de regresso e apanhei novamente o Metropolitano para voltar para casa.
Como havia suposto o telemóvel ficara no carro e nesse instante decidi até ser noite não ligar telemóvel para ver fosse o que fosse. Apenas atenderia chamadas.
Resumindo andei quase todo o dia sem telemóvel e querem saber?... Ainda não morri!
Chegou-me há pouco, à minha caixa de correio electrónico, uma ligação para um belíssimo naco de prosa de alguém que conheço, não de África, onde o autor esteve muitos anos e recentemente traduzidos neste fantástico livro, mas de outros encontros futeboleiros.
A prosa fala da última aventura de Astérix e os seus inseparáveis amigos Obélix e Ideiafix em terras lusas, de uma maneira e num estilo assaz diferente do meu (obviamente que o autor escreve muuuuuuuuito melhor, o que também, reconheço com humildade, não será mui dificil!!!).
Mas de tudo o que li naquela crónica ou análise, conforme queiram chamar, houve algo que me satisfez e que se prende, uma vez mais, com o tema das (más) traduções. É certo que estou tentado a adquirir a versão francesa até porque não gosto de julgar sem ver (ou ler!), mas já em aventuras anteriores notei uma (invulgar) incapacidade de traduzir bem os livros.
O que leva mais uma vez a tentar imaginar o que passará na cabeça dos nossos tradutores quando pegam neste pedaço de BD (mais uma imbelicidade para o nome "Novela gráfica") e traduzirem aquilo com uma linguagem pobre e sem graça, como se os leitores daquelas aventuras fossem ainda crianças em idade pré-escolar! Não são!
Finalmente e para não me alongar mais redirecciono o caro leitor ou leitora para o dito texto que merece ser lido e amplamente partilhado.
A centenária história de Portugal não se baseia somente em eventos fantásticos, vitórias assombrosas ou episódios assaz dramáticos.
A batalha de Aljubarrota, os Descobrimentos Portugueses, o terramoto de 1755 ou as vitórias lusas sobre as tropas napoleónicas são apenas meros exemplos de momentos onde se mostrou a coragem de que somos feitos.
Porém a nossa história tem muitos eventos que formaram, para o bem e para o mal, o povo que vive neste rectângulo à beira-mar plantado.
Há tempos um antigo colega e amigo brindou-me com este livro. escrito pelo sobrinho, sobre a vinda e estadia em Viça Viçosa de uma embaixada de quatro jovens japoneses que vieram tomar contacto e conhecimento com a sociedade, cultura e fé europeia.
Nesta obra podemos perceber como o poder religioso tinha mais impacto que o próprio poder régio. Como a "Sereníssima Casa de Bragança" que sediada em Vila Viçosa parecia ter um poder muito grande. Ouso mesmo dizer que maior que o próprio rei Filipe I.
Um pequeno livro recheado de inúmernos pormenores, onde se mostra como no fim do século XVI, Portugal era um país bem diferente daquele que durante muitos anos nos foi apresentado nas escolas.
Vila Viçosa parecia ser à época o centro da vida social e cultural de Portugal sem qualquer influência do Rei entronado. A embaixada nipónica esteve oito dias em Vila Viçosa onde foi recebida com toda a pompa e circunstância. E é destes breves, mas preenchidos dias que fala este bom naco de prosa, evidenciando o exemplo da boa hospitalidade e diplomacia lusa.
Esta foi a minha leitura dos últimos dias de praia.
Por volta do meio dia e à sombra de um chapéu, resguardando-me deste inclemente Sol que por estes dias tudo torra e queima, fechei a leitura de “Tudo é Tabu” o mais recente livro do jornalista, escritor, bloguer e meu amigo de longuíssima data, Pedro Correia.
O livro com a chancela da editora Guerra e Paz é um enormíssimo trabalho de investigação sobre as mais recentes formas de censura que se espalham por este Mundo sempre tão desejoso de (estúpidas) quezílias.
Cem casos de como grupos minoritários conseguem, através das mais ínvias e estúpidas formas, censurar livros, filmes, telas, esculturas, peças de teatro e muito mais, atirando também os seus autores para as catacumbas do esquecimento.
Cem murros no estômago da liberdade que tanto e a tantos custou a ser adquirida.
Cem lamentos para uma sociedade onde o que importa é somente o “faz-de-conta” pois a realidade passada e presente não deve ser tida em consideração.
Cem gritos de horror perante a subserviência de muitas instituições às imbecis redes sociais e ao medo das consequências que estas possam infligir nas suas vidas.
Cem maneiras de se tentar reescrever a história do Mundo.
Vivemos tempos estranhos, momentos atípicos, vidas confusas recheadas de “térmitas bem-pensantes”. Há quem chame de "wookismo"...
Pedro Correia com a assertividade que lhe é (sempre foi!) peculiar, dá luz a esta nova fórmula de se censurarem ideias, pensamentos, palavras, artes tudo em nome de uma matriz de sociedade em que ninguém pode proferir uma opinião sem correr o risco de se meter em graves sarilhos.
Arrisco mesmo a dizer que “Tudo é Tabu” estará um destes dias a encabeçar uma longuíssima lista de obras que deverão seguir directamente para a pira, “cem” passarem pela casa de partida!
Não ao autor, que apenas nos vimos e jantámos praí um par de vezes, naqueles ajuntamentos de afinidades clubísticas, blogueiras e barulhentas, mas a mim mesmo, já que o prometido é de vid(r)o, como diria o meu amigo, entretanto já falecido Alfredo.
Comprei o livro (o mais provável é o próprio não saber que o adquiri!!!) através de uma plataforma online, para o efeito e quando o recebi tomei-lhe o peso. Literalmente! Pensei: se o que aqui estiver dentro pesar tanto como estas trezentas e muitas páginas, fiz um bom negócio.
Andei com o livro para quase todo o lado na vâ esperança que se lesse sozinho. Pois não, não leu e tive de ser eu, uma vez mais, a pegar no dito e atirá-lo para a mala de porão.
Finalmente arranquei para o desgraçado viajante com aquele ímpeto tão tuga: agora é que vai! E foi.
Porém reconheço que deu luta, muita luta. Ainda por cima gosto de ler devagar, o que associado a uma escrita burilada porém assertiva, obrigou-me amiúde a ter de reler alguns dos textos.
"Torna-Viagem" é um conjunto de muitas crónicas (perto de 100) escritas por alguém que viveu em Moçambique durante muitos anos e de onde trouxe relatos duros, maduros, cruéis porém totalmente verdadeiros.
Para todos os textos há que vestir a armadura da indiferença, pois de outra forma passaremos a ser vítimas da nossa própria leitura. Houve momentos que tive de parar e respirar fundo antes de continuar. E eu até serei insuspeito porque jamais visitei o Continenete Africano e não conhecer aqueles ambientes.
No final fica a ideia, quiçá errada, de que o JPT fez a sua antropológica catarse ao esgalhar e publicar este compêndio de bem amar África, nomeadamente Moçambique.
De todas as crónicas, houve duas que me marcaram, a saber: "O camarada Paulo Gentil" e "Marjorie, o meu primeiro amor". Por razões olimpicamente diferentes...
Cumpri assim a minha promessa (não é muito frequente!, assumo!). O livro pesa muuuuuuuuito menos do que a escrita inclçusa nele. Portanto fiz um optimo negócio.
Poder ter muitos livros em casa é uma benesse que nem todas as pessoas conseguem sonhar quanto mais ter. Infelizmente!
Eu que sempre fui um afortunado consigo ter tantos livros que acabo por os espalhar para além do escritório e quando não para além desta casa.
O fim de semana passado encontrei um livro que não sabia que estava onde o vi. Julguei que estivesse junto aos outros. Mas o patife escondera-se...
Os ditos outros são uma série de livros de escritores que conheço bem, outros com quem convivi, mas a maioria são de gente muito boa e amiga.
Certamente que não irei aqui referir quem são uns e outros até porque isso seria muito deselegante, mas o que sai daqui é a maioria destes autores surgiram na minha vida após ter publicado os meus livros. Diria que não foi uma coincidência!
Já li quase todos os que aqui estão representados nesta pequena foto. E os que ainda não li, estão bem encaminhados.
Diria que é mesmo um requinte ter todos estes autores na minha singela biblioteca.
Uma nota final para o grosso volume de capa verde: é uma versão americana do Robinson Crusoé de 1904, com diversas iluminuras a cores. Uma herança que escapou ao fogo e às garras assassinas de livros e que caiu nas minhas mãos apenas por mera sorte.
Merece também estar neste lugar pois é um amigo que tenho e guardo há muuuuuuuuuitos anos!
Não posso nem devo mentir: ando a ler pouco! Quer dizer pegar num livro, abri-lo, senti-lo fisicamente entre os meus dedos e depois dedicar-me somente à sua leitura.
Neste momento tenho dois livros em aberto, isto é, comecei a ler cada um, mas ainda estão longe do fim. Reconheço que o problema desta lentidão é exclusivamente minha.
Tenho por hábito ler devagar. Há sempre uma ou outra frase que se destaca, que me obriga a parar de ler e a meditar nela. Por vezes volto atrás para perceber outras ideias que surgiram mais à frente.
Ler não é um acto simples. Para mim ler carrega uma responsabilidade acrescida pois não posso nem devo ficar indiferente ao que vou lendo. Os escritores gostam que se leiam os seus livros, mas ainda não percebi bem se querem que sejam simplesmente devorados ou se preferem uma leitura mais profunda por parte do leitor tentando que este encontre aquilo que não escreveram, mas que estará lá... escondido entre tantas palavras e frases.
Remato com a certeza de que ler é (também) uma bonita arte!
É a constatação de uma triste realidade: cada vez leio menos livros.
Sempre que visito outros espaços na blogosfera dou conta que ando a anos-luz da actualidade literária. Autores cujo nome jamais escutei e obras que nunca conheci. O que equivale dizer que ainda não saí do meu pobre casulo literário.
Terei espalhado por diversas casas centenas se não milhares de livros. A maioria clássicos e de escritores fantásticos e com o quais convivi feliz através dos seus escritos. Todavia os escribas recentes ficam no rol dos esquecidos. E tenho muita pena.
Se exceptuarmos alguns livros de amigos próximos, que me forço (com prazer) a ler, diria que ainda vivo no século passado onde procurava em cada livro que desfolhava, numa página lida ou em linha sublinhada o meu próprio caminho de escrita.
Hoje o meu tempo esvai-se entre as minhas enrugadas mãos, onde já começam a sobressair as artroses da idade e dos poucos cuidados.
De vez em quando prometo-me mais leituras, mais empenhamento nesse vaguear por entre frases e momentos inesquecíveis que podemos encontrar nas páginas de um livro. Mas num ápice esqueço a promessa e tudo fica arredado para amanhã. Mas amanhã vai ser o hoje e continuará a haver amanhã. E assim vou adiando... dia após dia!
Quero ler "Guerra e Paz", a "Divina Comédia", "Os Miseráveis" ou "Em busca do tempo Perdido" e tantos, tantos outros livros.
Quero ler Agustina, Mia Couto, António Lobo Antunes, João Tordo ou Jacinto Lucas Pires e uma imensidão de autores lusos e não só!
Quero ler somente o que ainda não li... Antigos e recentes!
Foi recentemente publicado a sexta aventura da série "Lucky Luke visto por..."! Diferentes autores com diferentes visões do "cowboy que dispara mais rápido que a sua sombra", mas todos eles marcantes nas pranchas, no enredo e obviamente no próprio desenho da personagem.
O famoso pistoleiro que Morris criou no século passado atravessou mais de 70 anos para hoje ser uma figura mítica na nona arte. A par de outras que por vezes aqui vou referindo.
Morris deu a Lucky Luke um aspecto físico que foi aprimorando com os anos, mas terá sido o argumentista René Goscinny que vestiu o cowboy de uma postura psicológica e de um cuidado com as palavras, tudo isto recheado de muito humor.
Curiosamente é neste recente livro de aventuras que encontro um humor assaz semelhante ao que escreveria Goscinny se fosse vivo. Algumas das personagens presentes remetem-nos para outras bem conhecidas, mas que eu me escuso a referir até porque poderá ser uma ideia minha sem qualquer fundo de realidade.
A estória envolve crianças, bandidos, xerifes, o sempre inseparável cavalo Jolly Jumper, já para não falar do próprio Luke, num desenho mais próximo do original.
De um humor muito bem conseguido o relato corre célere e as páginas do livros sáo passadas em grande velocidade.
Blutch é o desenhador consagrado que deu vida e luz a este pedaço de óptima BD. Vencedor do Festival de Angoulême, este francês conseguiu fazer-me reviver as boas e divertidas de Lucky Luke. Simplesmente muito bom!
O livro tem finalmente uns extras que merecem bem a atenção do leitor.
Um livro para verdadeiros apreciadores de BD e do cowboy solitário.