A actual greve dos Motoristas de matérias perigosas é um manancial de… coisa nenhuma para as televisões.
Vi alguns directos das televisões cujos repórteres se encontram em diversos locais do país e o que escutei foi somente isto:
- Aqui está tudo calmo… os camiões vão saindo…com normalidade.
Ora ao segundo dia de greve quando tudo já devia de andar à batatada para gáudio das televisões, nada acontece tendo mesmo um canal o azar de mostrar um camião cisterna a abastecer uma bomba de combustível.
Nem imagino a tristeza que pairará nas actuais redacções dos telejornais por não poderem comunicar o número de vítimas dos confrontos entre os A’s e os B’s!
Imagino que os partidos de esquerda lusa estejam à beira de um ataque de nervos tendo em conta a próxima greve dos motoristas de matérias perigosas.
Num país onde a maioria dos sindicatos estão maioritariamente ligados a Centrais Sindicais (CGTP e UGT), aparecer um sindicato independente, representado por um advogado, com uma capacidade mobilizadora fora do vulgar e capaz de parar Portugal pode tornar-se numa nova forma de sindicalismo.
Entretanto o PCP que sempre teve na CGTP/Intersindical o seu braço armado na contestação laboral deve andar em busca nos velhos manuais de como é que tudo isto lhe passou ao lado.
Lamentavelmente o BE vive um dilema interno de gestão política, pois ainda não sabe bem o que fazer ou dizer quanto a esta greve. Por um lado vem ao de cima a sua vertente de "esquerda-caviar" e afirma que os motoristas têm toda a razão para logo a seguir apoiar o governo nas decisões anti greve que Costa vai assumindo. Quase que faz lembrar uma velhinha e conhecida canção de Marco Paulo onde dizia que tinha dois amores.
Decididamente não sei quem tem razão neste diferendo que opõe motoristas à ANTRAL, pois necessitaria de ter comigo todos, repito todos, os dados que envolvem estas negociações, mas de uma coisa estou (quase) certo: o sindicalismo em Portugal jamais será o mesmo.
Em termos teóricos considero a greve com uma forma legítima dos trabalhadores lutarem pelos seus direitos. Sejam por melhores vencimentos, melhores condições de trabalho ou benefícios sociais, desde que justos, a greve fará sempre sentido.
Eu próprio já aderi à greve!
Mas quando a fiz levantei-me à mesma hora dos dias de trabalho e apresentei-me à porta da minha entidade laboral, mas não entrei. Fiquei ali horas a fio, em amena cavaqueira com outros grevistas presentes, até ser a costumada altura de ir para casa.
O mundo evoluiu e a greve deixou de ser unicamente uma forma de luta por mais direitos, para se tornar uma espécie de arma de arremesso contra a tão propalada, conhecida e desejada… paz social.
Reconhecendo alguma infidelidade à minha anciã veia de esquerda, oriunda dos anos setenta do pós 25 de Abril, e agora diluída numa pacata neo-burguesia, sinto que a maioria das greves não fazem sentido.
Os sindicatos, que são geralmente os grandes mentores desta forma de luta, estão quase todos associados a centrais sindicais de reconhecido cariz partidário.
Ora neste sentido é fácil criar-se instabilidade social e política através da assumpção de greves mais ou menos politizadas. Capacidade de mobilização, alguns slogans como chamariz… e temos a “feira” montada.
É por estas e muitas outras que olho para o nosso sindicalismo, e retirando algumas honrosas excepções, repito olho com muito cepticismo e consciente que aquele está cada vez mais afastado dos interesses dos trabalhadores e mais próximos de alguns sectores políticos.
A greve dos médicos que hoje se iniciou não sei se é justa ou não, mas a saúde deveria ser a última arma de arremesso contra um povo já de si tão carente de serviços médicos competentes. Meses à espera de uma consulta que depois não se realiza por causa de uma greve não é, de todo, a maneira mais democrática de lidar com a população.
Haverá certamente outras formas de luta que possam alertar o governo para o problema. Mas jamais à custa dos doentes. Jamais!
Nos anos oitenta sindicalizei-me a primeira vez. Era o presidente do sindicato um homem íntegro e que partiu infelizmente demasiado cedo. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente e lembro-me duma frase que ele disse entre dois "piratas" (passe a publicidade) ali nos Restauradores: "Ser sindicalista é ficar refém das causas dos outros. Nunca ganhamos nada, a não ser estima e amor próprio".
Há pouco tempo houve eleições para o meu actual sindicato, diferente daquele em que me inscrevi em 1980. E notei que cada vez são menos os sócios. Não por morte de alguns mas acima de tudo por que ninguém consegue rever-se naquelas associações. Então os mais novos fogem dos sindicatos como estes tivessem sarna.
Hoje, trinta anos volvidos de escutar aquela frase, percebo que o sindicalismo é tão só uma forma de vida sem qualquer sentido prático. Por isso há greves por tudo e por nada. E raramente, muito raramente há uma greve por melhores salários ou condições de trabalho. Estas são ideias esquecidas, enterradas vai para muitos, muitos anos.
O Metro deLisboa esteve hoje todo o dia em greve. Milhares de pessoas prejudicadas. O trânsico caótico, enfim mais um dia chato. E para quê? Rigorosamente para nada. Nada...
As greves e suas razões começam a ser temas recorrentes deste espaço. Mas alguém tem de dizer a esses sindicalistas da treta que estas greves não têm qualquer efeito prático, a não ser prejudicar os pobres utentes.