Os incêndios que paulatinamente vão devorando o nosso pobre país têm origem, em muitos casos, em mãos criminosas, algumas delas reincidentes. Mas, infelizmente, não só!
É nesta assumpção de que há outras razões, para além das mãos criminosas, para os incêndios que vou hoje perorar.
O problema começou no dia em que os portugueses deixaram a agricultura incerta e pobre por emigração, quantas vezes clandestina, para uma Europa bem mais rica e repleta de oportunidades. As terras agrícolas antigamente amanhadas eram férteis, mas o ganho era ínfimo para as necessidades familiares.
Com esta fuga de milhares de homens e mulheres, os terrenos rústicos foram abandonados deixando que a floresta assumisse o controlo desses pedaços. Esta cresceu sem qualquer regra e assim passámos a ter uma mancha florestal muuuuuuuuito maior, à base de eucalipto, pinheiro bravo, carvalhos e sobreiros.
Os portugueses que ficaram nas aldeias, ou pelo menos em Portugal, começaram mais tarde a perceber que a floresta era mais lucrativa que a agricultura. De x em x anos os eucaliptos estão prontos a ser cortados e nem necessitam de replantação porque voltam a crescer. Os pinheiros bravos não será assim, mas um bom pinheiro vale seguramente o dobro de um eucalipto.
Quando em 2017 os incêndios florestais causaram dezenas de vítimas mortais, a maioria apanhadas num jogo de fogo numa estrada regional, fiquei com a certeza de que os culpados morais dessas tragédias jamais assumiriam as suas culpas.
Mas pensando bem a culpa é um bocadinho de todos. Os donos das manchas florestais, especialmente as que estiverem contíguas à estrada não querem obedecer à regra dos metros obrigatórios de corte e, imagino eu, se um autarca obrigar um munícipe a cortar esse combustível arbóreo arrisca-se numas próximas eleições a não ser reeleito. E ninguém arrisca esse desafio!
Porém se o dono do terreno não votar na freguesia ou conselho é certo que será multado pelas autoridades e obrigado a limpar a mancha florestal. Sem direito a apelo!
Por tudo isto custa-me perceber as diversas críticas ao governo por não encontrar meios para nos libertar deste flagelo. Mas quantos destes autarcas fazem a sua parte criando equipas locais constituídas, por beneficiários do RSI, para limpar as matas públicas e privadas?
Não basta exigir ao governo (seja este ou outro qualquer) apoios financeiros, técnicos e logísticos. É essencial que cada freguesia, cada concelho identifique com rigor e sem receios de eventuais ameaças, os pontos mais perigosos de ignição de incêndio.
Só assim conseguiremos melhores resultados e menos focos de incêndio.
Li um destes dias que a GNR deteve um eventual incendiário de 37 anos de idade. Pelo que percebi era reincidente tendo já cumprido pena de prisão pelo mesmo crime.
Não quis ler mais, porque cresceu dentro de mim uma revolta contra a nossa justiça ou contra quem a fez ou faz!
Entretanto dei conta de mais dois casos de individuos detidos pela mesma prática pirómana e também com antecedentes.
Portanto a nossa polícia detém um incendiário, este é presente à justiça e esta na sua douta sabedoria após uma pena provavelmente pequena devolve-o à sociedade civil. Em plena liberdade o incendiário volta à carga... provavelmente explosiva.
Recebo estas notícias com um desejo sincero de mandar a nossa justiça para um sítio que eu cá sei. Mais... o Conselho Superior de Magistratura deveria aconselhar os seus juízes para cuidarem destes casos com outra visão obrigando, por exemplo, a que todos os incendiários identificados e em liberdade, a partir do mês de Junho e até ao final de Setembro, ficassem aos cuidados dos próprios serviços Prisionais, da GNR ou PSP. A exemplo do que se passa com alguns (maus) adeptos de futebol de durante o tempo de jogo das suas equipas têm de se apresentar na esquadra de residência.
Mas para que isto fosse realmente possível seria necessário que o nosso Código Penal abrangesse este tipo de condenação. Coragem e ousadia precisa-se!
Resumindo todos os anos se repete esta triste estória e não obstante muitas palavras e promessas por parte das autoridades governamentais tudo continua na mesma. Ano após ano!
A questão que levanto neste título pode ter diversos alvos.
O problema do Verão passado com a morte de mais de uma centena de pessoas e o dizimar de diversas manchas florestais, algumas delas com centenas de anos, levou a que o actual governo acabasse por ordenar a limpeza de matas tanto ao redor das povoações como ao lado das estradas.
Mas das duas uma ou os responsáveis não percebem da coisa ou então estas leis servem somente como propaganda política, já que é sabido que os fogos nas florestas se propagam, na maioria das vezes, pelas copas e não pelo chão.
Todavia o essencial continua por resolver. A nossa floresta mediterrânica com este tipo de pinheiro bravo carregado de resina é altamente combustível o que ajuda ainda mais à propagação dos incêndios. Prevenção é necessária, mas antes de mais será útil que cada região, cada Câmara, cada Freguesia conheça a fundo o seu parque de árvores e para cada um se apliquem medidas diferentes, conforme as árvores, os caminhos, as equipas de sapadores, etc.
Não basta falar, ordenar. É necessário entender os erros do passado para não se repetirem no futuro mais ou menos longo.
Portanto salvar o quê? Eis a questão principal: o governo, a floresta ou as pessoas...
No entanto é deveras importante que ilucidemos as pessoas, que demos a conhecer as mentiras e a demagogia que está instalada na nossa democracia (ainda me questiono se isto é democracia???).
Não posso aceitar que invista milhares de euros em projectos de "Melhoria da resiliência da floresta" de forma a evitar fogos e a sua propagação e depois receba cartas a dizer que não há dinheiro para isso.
Pior... é que há dinheiro para projectos bem diferentes e quiçá mais apelativos ou em que os beneficiários serão entidades com mais força dentra da Autoridade responsável pela distribuição dos dinheiros, mas para mim não!
Não aceito, pronto! E falarei disto até que me calem de vez.
Mas seria bom que os técnicos das diversas entidades fossem ao terreno. Que vissem o que fiz e continuo a fazer.
A expensas próprias.
A verdade é que eu ainda posso alguma coisa. Todavia a maioria dos pequenos proprietários não pode...