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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

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Porque peregrinas?

A pergunta que titula este texto foi-me formulada há muitos anos por um colega, assumidamente ateu, após uma das primeiras peregrinações que fiz a Fátima. Na altura não encontrei resposta devida.

Entretanto nestes próximos dias as estradas portuguesas enchem-se de peregrinos de coletes amarelos e fluorescentes vestidos, com o único intuito de chegar ao Altar do Mundo, onde encontrarão a sua fé personalizada em Nossa Senhora.

Vêm de todo o lado, arrastando-se muitas vezes por estradas assaz perigosas e caminhos sinuosos. E tudo para estarem presentes naquela noite de 12 para 13 de Maio na Cova da Iria.

Muitos caminharão por promessa, outros como meros acompanhantes de outros peregrinos e haverá mesmo os que andarão por puro turismo religioso, que ainda estou a tentar perceber o que é…

Peregrinar é pôr-se a caminho. Num caminho que é obviamente de fé, mas também de esperança e alegria. Fé num mundo melhor, numa sociedade mais justa, numa vida com maior sentido. Esperança na aceitação dos nossos próprios temores e das nossas dúvidas. Alegria por encontrar no regaço de Mãe Santíssima o local perfeito para ali colocar os nossos ensejos e as nossas dedicações.

Regresso à pergunta inicial: porque peregrinas? A resposta é fácil agora… Porque enquanto caminho encontro Deus nos mais singelos pormenores ou nas mais belas paisagens campestres.

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Peregrinar é isto - V

Quinto dia...

Saímos de Minde cedo como nos outros dias. Previam-se 17 quilómetros até à Mãe Santíssima, quase sempre em estradas de terra batida, para terminar em alcatrão.

O caminho fazia-se devagar tal era o esforço da maioria dos peregrinos ao fim de quase 150 quilómetros. Acabei esta minha viagem a conversar com o Padre J. que me escutou... escutou... escutou...

É preciso ser-se um enormíssimo pastor para conseguir levar este rebanho pelas estradas, em busca do consolo de Virgem Maria.

Uma peregrinação não pressupõe somente andar... Há nesta opção, que nos é tão familiar, um misto de sentimentos, onde o espírito de sacrifício de cada peregrino, a teimosia, a persistência e a verdadeira fé se conjugam numa espécie de mistura rica, muito bonita e assaz sensível.

Chegou-se à Cova da Iria ainda antes do almoço. Coletes amarelos entregues, surgiu então uma mancha laranja, já que cada peregrino foi brindado com um bonito camisolão, referente a esta peregrinação. Rezámos o terço ainda antes de entrar no santuário. Por fim...

Ao centro a velha Basílica, para do lado esquerdo se observar a Capelinha das Aparições. Fomo-nos aproximando em silêncio. Um silêncio que teve o condão de fazer despertar muitas lágrimas. Duzentos metros.... cento e cinquenta... cem...

A cadência dos passos é sempre a mesma. Ninguém corre nem recua. Há ali uma atracção serena por aquele espaço.

Cinquenta metros... trinta... vinte. Há quem olhe para aquela mancha colorida de forma estranha. Outros mais habituados, nem ligam.

Por fim a imagem de Nossa Senhora envolta numa redoma de vidro, ali a aguardar por todos nós. Pelos nossas dores, aflições, desejos e orações. São torrentes de lágrimas sentidas, choradas com fervor, partilhadas com os outros peregrinos.

Veio o almoço seguida da eucaristia onde a homília foi quase toda substituída por partilhas dos que viveram esta aventura. A maioria dos que falaram foi a primeira vez que peregrinaram!

Peregrinar resume-se neste permanente dar de mão, naquela questão ao que caminha sozinho "estás bem?", nas muitas horas de partilhas nos chãos desses pavilhões, dos banhos mal tomados.

Peregrinar é assim tudo isto e muito, muuuuuuuuuuuuuuito mais.

Diria... uma bem-aventurança!

Peregrinar é isto - IV

Quarto dia... "apenas" 27 quilómetros.

Parece pouco comparado com o que fizemos, não é?

O problema é que tivemos de atravessar uma serra íngreme e que não foi fácil.

A bem da verdade esta madrugada não foi um grupo de peregrinos que saiu das Fráguas mas um grupo de "zombies", tal a forma como todos estavam ao fim de 90 quilómetros.

Após laudes e reforço alimentar eis que entramos numa aldeia a rezar a via sacra. Textos duros. Muito duros que deixaram muitos peregrinos a chorar.

As palavras de uma mãe que vê o seu filho a ser crucificado na cruz não são fáceis. Nem de ouvir e muito de dizer, especialmente por uma mãe.

Mas a peregrinação é tudo isto: um misto de alegria da caminhada em Cristo e a consciência da paixão de Jesus.

Amanhã chegaremos a Fátima.

E teremos Mãe Santíssima à nossa espera.

Adenda: A eucaristia de hoje decorreu, já muito tarde, no recinto onde os peregrinos dormiram, numa profunda demonstração de como Jesus Cristo está em todo o lado.

Peregrinar é isto - III

Terceiro dia... e 36 quilómetros.

Já não há pés somente uma bolha imensa que contém cada pé.

O dia esteve bom sem muito calor nem chuva.

Continua o exercício proposto pelo padre J. aos nossos dias, aos nossos medos, às nossas angústias, às nossas permanentes dúvidas.

O tema desta peregrinação é: "Da palavra nasce a fé". Que tema mais apropriado para um homem da escrita, como eu.

Jamais serei um bom semeador de palavras. Quiçá um mero semeador de sementes de misericórdia.

As questões levantadas nos outros dias mantêm-se em aberto.

As respostas pairam no nosso Espírito.

Amanhã será outro dia.

Peregrinar é isto - II

Segundo dia...

Acordamos novamente muito cedo. Ainda por cima a hora mudara...

Tralha arrumada, pequeno almoço tomado e eis-nos a caminhar debaixo de uma chuva miudinha e muito, muito fria.

Mas peregrino que se prese não se atemoriza com a intempérie e parte para o caminho repleto de coragem e fervor.

Onze quilómetros palmilhados e parámos em Sobral de Monte Agraço, onde numa pastelaria confortámos o estômago com cafés e pastéis de feijão. Uma delícia...

Depois a oração das laudes rezadas em conjunto. O almoço seria a próxima paragem.

Pelo caminho surgiram as primeiras questões formuladas pelo padre J. A nossa alma começa a perceber que nem tudo é como gostaríamos. E que a fé advém da palavra.

Ficou então no ar uma questão: qual a palavra que define a nossa fé?

Temos mais 90 quilómetros para encontrar a resposta. 

Assim nos ajude Deus e a Virgem Maria.

 

Peregrinar é isto - I

Começou hoje a caminhada até Fátima.

Acordou-se muito cedo. Assim a horas normais para a Joana.

Após o reencontro com muitos peregrinos já conhecidos, foi o momento da eucaristia.

Partimos de seguida e fomos logo brindados com uma forte chuvada que obrigou muitos a recorrerem aos impermeáveis.

Este peregrino aguentou estoicamente a bátega e lá caminhou por entre as gotas de chuva.

Muitas subidas e descidas, alguma lama mas nada muito mau. Já fiz muuuuuuuuito pior.

Chegámos de dia ao primeiro destino.

Banho tomado aguardamos o jantar e as orações da noite.

Amanhã será outro dia

Sentimentos: diversos.

Dias alucinantes de emoções - 2

No Sábado, dia 13 de Maio, acordei bem mais cedo que o despertador.

Às 7 já estávamos na Cova da Iria. Liguei aos meus novos amigos e tentei saber qual o ponto de situação deles. Foi complicado entrarmos no recinto sagrado tal era o magote de pessoas a entrar. Já lá dentro procurámos um bom lugar de forma a podermos assistir à eucaristia. Após algumas voltas decidimos passar pelo sítio onde viveramos sentidas horas no dia anterior. E não é que o lugar estava ainda (quase) vazio? Coincidências? Não creio...

Mensagem enviada à C. a comunicar o lugar e eis que nos juntámos uma vez mais.

O Sol matutino, entrecortado por algumas tímidas nuvens, iniciava a bater forte. Escondidos por entre bonés e chapéus assitimos à entrada de S.S., à canonização de Francisco e Jacinta Marto, à homilia do Peregrino de Paz e de Esperança, aos silêncios que concentraram todas as nossas orações, aos pedidos que cada um, dentro de si mesmo, foi serenamente formalizando.

A minha alma entretanto rejubilava de alegria pois jamais pensei poder assistir a uma missa presidida por um Papa. Com um único ouvido para escutar e um só olho para ver, há muito que perdera o sentido... Mas Deus deu-me esta imensa alegria.

As palavras proferidas pelo Papa Francisco ainda agora ressoam na minha alma. Vão candidamente alicerçando algumas das minhas dúvidas, destruindo as certezas, amenizando as minhas raivas, apaziguando as minhas tristezas.

As celebrações do Centenário das Aparições em Fátima estavam a terminar. Com enorme pena minha...

Finalmente a saída que se fez com grande aparato e demora. Depois foi o tal café da manhã que para mim não foi café, mas que soube divinalmente.

Estávamos na hora da despedida... a tristeza da partida ou a alegria de termos encontrado novos amigos? Que seja Mãe Santíssima a responder.

Termino com aquela minha bizarra sensação de querer voltar para Fátima uma vez mais. Com a C. e o B.

Gente de alma e coração fantásticos. Jamais esquecerei estes dias. Bem-hajam para sempre... Amigos!

 

Dias alucinantes de emoções - 1

Mais de 24 horas após ter saído de Fátima, já consigo escrever sobre o que vivi naquelas horas.

Foram muitas as emoções e os sentimentos. Muitas palavras escutadas, muitos silêncios sentidos, demasiadas certezas tornadas dúvidas e muitas dúvidas passadas a certezas.

Tudo em tão poucas horas, como se de um momento para o outro eu tivesse que me tornar noutra pessoa. Depois… bom depois há seres humanos que nos surgem na vida que ainda tentamos perceber como foi possível… entre milhares de pessoas termo-nos encontrado.

Há pessoas que não necessitamos conhecer a fundo porque são transparentes. Foi o caso da C e do B. Um simpático casal que apareceu ali, vindo do nada, a necessitar de uma improvisada mesa para fazerem o jantar e que por ali ficou. Que bom foi passar aquele resto de tarde e noite com eles. Gente muuuuuuuito boa. Foi uma verdadeira bênção conhecê-los.

Como diz uma amiga minha: nada acontece por acaso, Deus sabe sempre o que faz. Peregrinos de Fátima como nós caíram ali quase desamparados. Mas acolhemo-los como se aquele recinto sagrado fosse a nossa humilde casa. Ou foram eles que nos acolheram?

Orámos juntos, rimos e chorámos juntos, silenciámo-nos juntos. E tudo sob a capa benfeitora de Sua Santidade o Papa Francisco.

Entretanto do outro lado do recinto sabia que a Maria também lá estava. Trocámos mensagens e acabámos por falar ao telefone num momento de pausa para jantar. Entre nós um mar de gente e um oceano de emoções. Longe fisicamente, mas certamente perto em sentimentos.

Quando a meio da tarde o Papa Francisco chegou à Cova da Iria, todos nós peregrinos chorámos. Porque nos sentimos abençoados por Sua Santidade. Aos pés de Virgem Maria, o Peregrino de Paz e de Esperança orou em silêncio. E todos nós o imitámos. Depois as palavras que desbravaram o meu coração repleto de questões e receios.

A noite, então chegada, trouxe-nos novamente S.S. e a bênção, seguida da procissão das velas. Momentos inesquecíveis com a oração do Rosário de Fátima e um “manto de Luz” feito de velas, como referiria mais tarde o Papa.

A noite terminou para mim após a eucaristia. Regressei a casa dos meus pais. C. e B. foram dormir para o carro.

Hoje em modo peregrino

Este texto foi escrito ontem em Lisboa ao fim do dia, ainda antes de partir para perto de Fátima.

Porque provavelmente estarei a rezar na Cova da Iria, à distância de horas e quilómetros a que estou a escrever isto, nem imagino como estarei no Santuário à hora que isto for publicado.

Assim:

  • Aos que cá ficam rezarei por vocês.
  • Aos que também vão que tenham boa viagem.

Que Mãe Santíssima vele por todos nós.

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