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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

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Cem anos de Eugénio de Andrade!

Conheço bem a Póvoa da Atalaia, aldeia do concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, berço do poeta Eugénio de Andrade há precisamente 100 anos. Ou será de José Fontinhas?

Ler Eugénio de Andrade é fugir ao comum dos escritos, é sentir que a poesia tem outra dimensão, mui diferente desta que hoje vamos aqui e ali desfiando.

Sempre que entristeço leio-o. A "Ele Génio" das palavras e dos sentimentos. E logo acordo para outra realidade.

Certa tarde ousei... a pegar na frase que está sublinhada, retirada deste belo poema escrito pelo poeta beirão,

Mar, mar e mar

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.

e escrever este pobre poema.

Prosa-poema para um fim de tarde

Daqui deste alto, tão alto que quase toco as estrelas,

Vejo ao fundo a linha de horizonte, ténue

Onde singelos pontos brancos tocam o céu.

 

Daqui deste alto, tão alto, que quase abraço a Lua,

Vejo alvas e serenas almofadas,

onde o sol, por fim, irá repousar.


Daqui deste alto, tão alto que quase me sinto voar

Vejo o condor, que em voos brandos e fatais,

Mira a sua presa perfeita e ingénua.


Daqui deste alto, tão alto que quase agarro o vento,

Vejo o verde da planície recortado por plúmbeos traços,

Alagar o vale de esperança primaveril.


Daqui deste alto, tão alto, há quem oiça o mar,

Pode ser que sim…

Mas eu também não sei o que é o mar!

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