Na minha aldeia há muitos, muitos anos era hábito fazer-se uma almoçarada ou jantarada quando se acabava a campanha da azeitona. Tudo corria à custa do patrão, mas se a safra era boa este jamais se queixava. Note-se que naquele tempo não ficava um bago de azeitona no chão. Unzinho para amostra, nada!
O tempo passou as modernicaes entraram nas aldeias e as candeias de azeite foram rapidamente substituidas pelas lâmpadas. Depois vieram os frigoríficos e as geleiras de tal forma que o azeite que antes era usado para quase tudo deixou de ser necessário.
Restou a cozinha, onde o bacalhau e as couves criadas na horta e curtidas pelo frio requeriam sempre azeite, de preferência do bom.
Daqui resultou que deixou de ser necessário pessoal de fora, pois os da casa com mais uma ou outra ajuda seriam suficientes.
Entretanto os lagares modernizaram-se. Deixaram as prensas hidraúlicas ou de varas para passarem a terem cilindros centrífugadores. A almofeira que antes corria chão abaixo até à terra, agora tem de ficar retida e o bagaço antes alimentava os porcos vai para uma destilaria.
Portanto a beleza da festa de fim de campanha oleícola ou "adiafa"... reside hoje apenas na memórias dos mais velhos. Que cada vez são menos.
Entretanto a minha adiafa é feita desta forma... escrevendo, dando a conhecer o que foram três semanas de trabalho e obviamente o seu resultado.
Em postais anteriores fui publicando algumas fotos dos meus atarefados dias, mas hoje venho apenas mostrar em números a safra deste ano. Porém há algumas diferenças entre a minha aldeia e a terra beirã onde também colho azeitona. Numa sempre que a carga é grande levo-a directamente ao lagar e ali fica para ser devidamente tratada. Daí ter diversos pesos no quadro infra.
Quilos azeitona
Litros
197
24
543
74
434,15
59
524
74
341,05
52
624,15
96
530
77
498
67
437
66
360
44
268
34
4756,35
667
Enquanto na Beira Baixa entrego toda a apanha de uma só vez.
Quilos azeitona
Litros
2450
372
Mas no fundo vai tudo bater ao mesmo.
Só que no primeiro quadro alguns dos carregos que ali são apresentados referem-se a colheitas feitas por outras pessoas em terrenos meus, isto é, tendo em conta que não conseguiria em tempo útil correr todas as oliveiras tive o cuidado de as oferecer (algumas carregadas) a duas famílias que cuidaram de as apanhar e obviamente ficar com o azeite. Portanto dos meusterrenos que cuido ou mando cuidar colheram-se 4756 quilos de azeitona que deram 667 litros de azeite que foram distribuídos por quatro famílias: a minha, os meus pais e mais duas pessoas amigas.
Já na Beira foram necessários quatro dias e meio e nestes dois deles com mais duas pessoas o que equivale, na realidade, a oito dias e meio para se colher duas toneladas e meia de boa azeitona e que transformaram em 372 litros de azeite.
Fica a imagem final do reboque carregado de azeitona antes de ir para o lagar
Sinceramente perdi o conto ao número de sacos que passaram pelas minhas mãos para chegarem aqui. A maioria mais que duas e três vezes.
Remato com esta ideia final: a azeitona paga sempre ao patrão, mas este tem também de trabalhar para isso.
É o que eu faço.
Até para o ano que a campanha de 2026 começa agora!
É costume, por aqui, guardar-se para o derradeiro dia a fazenda mais longe do povo ou mais aborrecida de colher a azeitona.
Hoje também não variou e depois de ir ao mecânico das varejadouras eléctricas apresentei-me na fazenda tentando terminar o dia e esta caampanha da melhor forma, não obstante alguns percalços rapidamente sanados (leia-se quedas!).
Bom, finalizo este diário com a certeza de que quem leu as crónicas anteriores ficará com uma ideia diferente da colheita da azeitona.
É curioso que falámos do fruto, sem nunca o especificar com propriedade. Há diversas tipos de azeitona em Portugsl. A mais comum é a galega ou verdeal (nomes assaz diferentes para a mesma fruta). Por aqui há também a lentrisca, um tipo de oliveira desigual das demais e com a árvore a mostrar-se, também ela, diferente.
A melhor característica deste tipo de oliveira é que dá um azeite muito, mas muito especial. Hoje de tarde corri uma série delas que se apresentavam mais carregadas. Como esta,
Para além da azeitona galega ou verdeal e da lentrisca, conheço a cordovil e a bical, estas duas óptimas para a conserva. Obviamente que pelo país haverá novos e diferentes tipos de olivas
O céu entretanto foi salpicando alguma chuva e até deu para ver este espectáculo,
Quem sabe um convite a regressar a casa por este ano!
Todavia desta vez obedeci.
Onze dias duros, muitos duros, mas para mais tarde bem recordar.
Obrigado a quem esteve por aí. Agora até para a semana com nova bravata, desta vez em Castelo Branco.
O trabalho de moer a nossa azeitona tem custos. E não são nada baratos! Também calculo que a despesa para manter um lagar de azeite a funcionar como "manda a sapatilha" europeia não deva ser coisa de somenos
Para pagar o serviço há diferentes formas de o fazer. A este pagamento chama-se maquia. O mais comum é pagar-se com o próprio azeite extraído da safra de cada cliente, deixando no lagar uma percentagem. Todavia pode-se outrossim pagar um xis por cada quilo de azeitona entregue, levando o azeite todo. Mas há outra opção que é aquela que normalmente opto na Beira Baixa e que se baseia na tal maquia.
Quando entrego a minha azeitona no lagar espero pacientemente que esta seja transformada. No final é apurada uma quantidade de azeite sobre a qual recai a percentagem da maquia.
Porém não deixo esse azeite no lagar, mas acabo por o comprar. Isto é se a maquia para o meu azeite for por exemplo 20 litros como compromisso de trabalho feito, para o levar terei de o pagar como se fosse um normal comprador de azeite
Todas estas formas de pagamento vão entroncar naquele postal de ontem onde escrevi sobre médias e estranhos campeonatos.
Entretanto escrevi este postal na fila para o lagar com a minha carrinha carregada. Esperam-me muuuuuitas horas.
A ideia é a mesma... a forma como o conseguir é que é diferente.
Vamos ao que realmente interessa.
Todos os anos a campanha da azeitona acarreta consigo uma espécia de torneio ou campeonato entre os inúmeros produtores de azeite. Todos querem ser aquele que teve a azeitona a fundir melhor.
Também na aldeia da Beira há esse desiderato porm com medidas diferentes, mas que no fundo dará o mesmo resultado.
Por aqui tudo se mede em percentagem de azeite em cada conjunto de sacos entregues no lagar. Ou melhor a tabela será saber quantos litros de azeite saem de 100 quilos da azeitona. Uma conta meio estranha já que estamos a dividir quilos por litros... Mas enfim.
E quanto maior for o valor da percentagem mais feliz fica o produtor. Eis um exemplo prático: eu recebi azeite que prroduziu a 13,6% e outro a 15,2%. Obviamente que o último foi melhor.
Mas reparem agora na visão, postura ou norma na Beira Baixa onde se pretende saber quantos quilos de azeitona serão necessários para obter um litro de azeite. No exem+plo que referi no parágrafo anterior os valores foram: 7,6 e 6,5 respectivamente.
Como se percebe o que num tem de ser mais alto (em percentagem) no outro tem de ser mais baixo (em quilos) para que o prrodutor não vá para a taberna vociferar "cobras e laratos" contra os homens do lagar.
E já não meto nesta conversa a célebre maquia que só vem para esfagegar todas estas contas.
Mas isso será certamente tema para um novo postal!
Fala-se por aqui que antigamente é que as oliveiras davam azeitona, já que cada família teria no final de cada campanha litros e litros que durava o ano todo ou mais.
Há diversas explicações para esta situação e que une à ideia da evolução da nossa sociedade (leia-se país!).
Ainda me recordo de nesta aldeia não haver luz eléctrica, água canalizada e muito menos esgotos.
Para quem como eu já viveu outros tempos lembro-me das lamparinas a azeite, dos fritos feitos em azeite, de conservar os queijos em azeite ou até alguns enchidos. E obviamente para temperar os cozinhados.
Ora isto equivale a muitos litros gastos ao fim do ano da preciosa gordura vegetal.
Ao darmos o salto para a actualidade a única coisa que resta é o tempero na comida.
Portanto longe das inúmeras necessidades de outrora.
Naquele tempo (diria há mais ou menos meio século) os meus avós contratavam amiúde um rancho de gente para os ajudar na apanha da azeitona. E esta apanha era mesmo para ser apanhada: toda, toda, toda! Estivesse ela em que estado estivesse.
Actualmente há máquinas (e não são apenas as varejadoras electricas como as minhas!) que fazem em horas o que um rancho levava dias a fazer. Algumas das mãos das apanhadeiras (raramente vi mulheres a ripar azeitona como o homem) ficavam até ensanguentadas.
Hoje vivo no tempo de "olhar e não ver" que equivale a passar por azeitonas caída no chão e nem sequer me baixar para as apanhar, porque o tempo é escasso.
Não imagino sequer quantos sacos teria a mais do que agora se colhesse ou apanhasse toda a azeitona?
Todavia não me interessa ter mais azeite que o ano anterior. Basta ter o suficiente para um ano. Com a qualidade do deste ano. (Ah pois... já provei o azeite que recebi ontem do lagar. Jovem, irreverente, todavia suficientemente gostoso - característica que irá perder dom o passar das semans, mas ganhando outras.
Portanto noutros tempos a colheitra da azeitona era uma alegria. Agora uma incerteza.
Em quatro dias três pessoas colheram, escolheram, carregaram a azeitona. Também se estenderam os panos (há quem os denomine de panais ou até mantas!!!) sob as oliveiras, arrumaram as alfaias, cuidou-se dos equipamentos, deixou-se a fazenda limpa.
Pois é tudo faz parte da campanha da azeitona. Até ir ao lagar deixar a azeitona para ser moída e transformada em bom azeite. E de preferência muuuuuuito. Pois como diria o meu avô paterno, lagareiro anos a fio cá na aldeia: a oliveira dá a azeitona, mas quem dá o azeite é o lagareiro.
Tudo isto para ddizer que ao início da noite fui entregar mais 534 quilos a azeitona colhida neste dia. Portante nestes últimos dias á entreguei 1501 quilos de azeitona, no lagar. Isto é em média três pessoas colheram 400 quilos por dis, de azeitona.
Entretanto pelo que constatei no lagar o azeite desceu de preço, pois dos 10 euros há uns anos agora querem "só" seis euros por litro.
A meu ver seis euros é um preço pornograficamente barato.
Quem andaria 12 ou mais horas ao Sol e ao calor para apanhar azeitona? Eu faço-o porque gosto de comer do meu azeite e não uma qualqquer zurrapa.
Eram sete e qurenta ee três minutos desta manhã qunado tirei esta foto.
Pois é a esta hora quase madrugadora preparava-me para pegar na ferramenta adequada ao trabalho. Uma varejadoura ligada a um bateria, que ajuda e de que maneira a colha da azeitone.
Um breve pormenor: as baterias hoje amuaram e tive de me socorrer de outros para conseguir trabalhar. Um contratempo que atrasou a apanha.
Durant e todo o dia houve muito calor. Até demais, Mas isto não impediu que a azeitona caísse denytro dos panos previameente estendidos ao redor do pé da oliveira.
Oliveira colhida e logo outro pano terá de estar estendido sob a árvore. Entretanto vamos levantado os panos e juntando a azeitona para ser escolhida, retirando os galhos secos, grandes e deixando unicamente as folhas que o lagar fará desaparecer.
Mas antes do lagar há que ensacar a azeitona. Entre ontem e hoje levei 26 sacos ou 543 quilos de zeitona limpa.
Cumprindo uma espécie de tradição eis-me hoje e durante os próximos dias a esgalhar umas palavras no sentido de dar a conhecer esta azáfama anual.
Dizia o meu sábio avô, lagareiro durante muitos anos, que em tempo de azeitona vimos o dia nascer. Eu acrescento: vimos a noite esvanecer.
Por isso quando o sol nasceu já eu andava a colher azeitona, ainda não eram oito da manhã.
Durante todo o dia andei fazenda acima, fazenda abaixo a dar serventia a um colaborador que aceitou ajudar-me. A preocupação dele era somente botar a azeitona ao chão onde os panos previamente por mim estendidos recebiam os bagos.
Desta vez com uma nuance: a azeitona está quase toda verde.
E o pior é quando amadurece cai num instante ao chão. Portante optei por a apanhar da árvore... verde. Dizem que dará menos azeite, eu acredito que terá um gosto mais forte até à proxima Primavera.
As mantas recheadas sucediam-se a uma velocidade quase vertiginosa, que só abrandou quando as oliveiras passaram a ser maiores e com muito mais trabalho. Deu tempo para reorganizar a escolha e a distribuição dos panos.
À seis da tarde o meu amigo partiu para o seu mereceido descanso, mas eu lá fiquei até ser noite a estender panos para amanhã.
Também fiquei a ver o Sol a por-se.
Regressei a casa doze horas depois de ter saído com a certeza de que 500 quilos já estão apanhados. Pelo menos trouxe 10 sacos e ficaram ainda por escolher outros tantos.