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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

37a9m25d - #14

O esquecido!

O Tinoco era um daqueles técnicos juristas brilhantes. Assertivo, conhecedor a fundo do Direito, conseguia sempre arranjar uma boa solução para o problema que lhe apresentassem!

Só que este advogado tinha uma característica que lhe arregimentava alguns problemas e que se traduzia numa só palavra: esquecimento.

Conhecia as leis de frente para trás, as alíneas dos decretos e demais diplomas, mas para as coisas mais simples… era o cabo dos trabalhos. Esquecia-se sempre…

Conheci-o bem e o relato seguinte não me foi contado por ele, mas por outro colega. Então reza assim:

Estávamos em vésperas de mais um Natal. As ruas estavam pejadas de gente que subiam e desciam numa busca constante.

Naquele dia a mulher do Tinoco combinara com o marido vir a Lisboa, também para umas compras. Combinada a hora e relembrada durante a tarde com um papel em letras enormes:

Às 5 no Rossio! – escrevera ele.

Cinco minutos antes o Tinoco fecha os compêndios e parte para o Rossio para se encontrar com a esposa. Havia naquele tempo na Praça central de Lisboa um andar que servia de convívio a colegas reformados ou até a alguns que no fim do dia apareciam para uma merenda ligeira.

Esse foi assim o local de encontro entre Tinoco e esposa. Mas o causídico não estava pelos ajustes para andar loja dentro, loja fora a fazer compras. Assim concordou com a mulher ficar na sala de convívio à sua espera enquanto faria as compras.

A noite por aquela altura do ano cai muito cedo e a determinada altura Tinoco, que se embrenhara numa leitura de um livro, olhou o relógio e percebendo a hora quase tardia pôs-se a caminho do lar… sozinho.

Já estava em casa quando tocou o telefone e reconheceu a voz da mulher.

- Onde estás? – perguntou ele.

- Aqui à porta do salão à tua espera…

- Ah… pois… esqueci-me de ti!

37a9m25d - #13

O peso de um saco

Numa certa altura o Serviço de Tesouraria achou por bem solicitar ajuda à Filial do Porto. Nesta agência havia alguma gente com pouco que fazer, muito por culpa da extinção de funções.

Assim de um dia para o outro cairam na Tesouraria de Lisboa uma série de colegas com sotaque nortenho muito acentuado. Todavia sempre se mostraram muito profissionais e trabalhadores.

Alguns deles optaram por alugar uma casa onde dormiam e faziam a sua vida, durante a semana sendo que ao fim de semana partiam "num tiro" para o Porto. Para isso alguns deles optavam por ficar num serviço que era prestado pela tesouraria e que ficava muito perto do Campo das Cebolas e donde naquete tempo partiam os expressos para a cidade Invicta.

Gente impecável, adoravam um belo almoço sempre muito bem regado. 

Ora certa sexta feira o Martins que era um dos nortenhos, pediu para ir para a dita caixa. Geralmente ele seria o primeiro a fechar da parte da tarde e estando a caixa certa o serviço libertava o homem para que apanhasse o autocarro o mais cedo possível.

Fechada a caixa o colega comunica:

- Tenho a caixa certa, vou entregar os saldos e depois vou-me embora.

Tudo certo sem problema, assumiram naturalmente os restantes colegas.

O Martins pega então no saco com os seus pertences e sentiu-o mais pesado que o costume. E declarou:

- O almoço foi bom e parece que bebemos demais...

- Então?

- O saco pesa...

- Para a próxima bebe menos!

Não sei o que se terá passado no Porto, mas fico somente a imaginar a cara do Martins ao abrir o seu saco e encontrar dentro dele "apenas" três listas telefónicas de Lisboa, como se usavam naquele tempo.

lista_telefónca.jpg

37a9m25d - #11

Mestre informático

Quando em 1997 saí a tesouraria para ingressar noutro departamento jamais pensei que a nova vida passaria pela informática. Mas passou… E também nesta área apanhei casos estranhos para não dizer bizarros.

Entre os “shorcake” e “printscreem” em vez de “shortcut” ou “ print screen” e os cd’s enfiados dentro do pc (ainda hoje estou para saber como conseguiu enfiar o cd lá dentro) em vez do leitor ou disquetes (pois… ainda sou desse tempo) enfiado dentro da “drive” de cd’s apanhei um pouco de tudo.

Curiosamente deste tempo todo, que foram mais de vinte anos, aprendi que aqueles que menos sabiam de informática eram os mais certinhos enquanto os curiosos eram um foco enorme de problemas.

Mas o primeiro caso mais estranho aconteceu com um jurista em fim de carreira. Havia-lhe sido entregue um computador de topo de gama e um monitor enorme. Chamo à atenção para a curiosidade de que o monitor era um do tipo CRT daqueles com um cinescópio enorme e que ocupavam um espaço considerável.

Todos os dias quando olhava para o gabinete via-se sempre com a mesma imagem: um relógio virtual ligado obviamente ao relógio do PC.

O utilizador era um homem bom. E grande… Em quase tudo. No tamanho, pois mediria perto de 1,90 de altura que corresponderia outrossim à mesma medida de cintura o que equivale dizer que pesava muito para cima dos 100 quilos.

Depois era um bom garfo. E consequentemente um bom copo o que em termos de despachos jurídicos nem sempre calhava bem. Quem com ele trabalhou recebia muitas vezes a indicação:

- Se esse despacho foi dado por mim de tarde não ligue pois já estava bêbado.

Ora um dia o meu chefe comunica-me que o computador do dito doutor de leis já tinha chegado ao limite de vida e teria de ser substituído. Teria por isso de ir buscar um novo ao armazém e coloca-lo no utilizador.

Nesse célebre dia de manhã, obviamente, cheguei junto do gabinete:

- Bom dia Doutor, como está?

- Optimo! O que precisa de mim?

- Tenho um computador novo para lhe entregar.

- Mas eu não preciso – confessou lhanamente.

- Acredito, mas são as regras da casa.

- E que é que quer que eu faça?

- Que desligue o seu computador se fizer favor!

Acto contínuo virou-se para o monitor e desligou-o. Para ele o resto não existia o que equivalia dizer que durante alguns anos aquele computador esteve sempre ligado.

Entretanto o monitor estava todo queimado da manutenção da mesma imagem horlógica durante anos.

37a9m25d - #10

Conversas intermináveis

Sempre fui muito tagarela. Tão falador que me custou um conjunto de alcunhas quando era muito novo. Talvez por isso achei que jamais encontraria alguém que falasse mais que eu. Enganei-me redondamente e em vez de um encontrei dois colegas tão faladores que…

Naquela época era costume, sempre que alguém passava à reforma, organizar-se um jantar de homenagem ao colega. Geralmente marcava-se para uma sexta-feira porque se sabia de antemão que o repasto entraria pela noite dentro.

Naquela sexta o homenageado foi um chefe, homem bom, financeiramente rico, trabalhando apenas para passar o tempo. Portanto enfrentara muitas vezes os directores com grande à-vontade defendendo  sempre os seus colaboradores. Daí ter ganho, por parte do pessoal, muito apreço. Resultado: o restaurante naquele serão encheu-se de colegas. Sportinguista de muitos anos, organizou-se por isso o jantar no velhinho estádio de Alvalade.

Como previsto o encontro acabou muito perto da meia-noite, mas ainda assim não o suficiente tarde para impedir que alguns colegas fossem acabar a noite no bingo do Sporting (eu incluído).

Após umas horas de divertimento e sem gastar muito dinheiro acabámos por sair e cada um regressar a casa. Dirigi-me ao meu carro que se encontrava no lado oposto ao bingo e deste modo passei mesmo ao lado das paredes exteriores do velho estádio.

De repente e sem contar dou de caras com dois convivas que tendo ido também ao jantar, puseram-se calmamente a conversar, andando sempre à volta do estádio.

- Ainda por aqui? – perguntei a rir pela hora tardia.

Um deles olha para mim e devolve:

- Que horas são?

- Quatro da manhã!

35a9m25d - #9

Sem-abrigo sim… sério também!

Imagine-se um sem-abrigo de roupas rotas e sujas, barba de muitos dias, mãos mais negras que a própria terra, voz rouca e cavernosa, mente descompensada. Pois… para além da imaginação, este ser existiu e foi protagonista de uma das estórias mais incríveis que me aconteceram, mesmo que no final nem pareça um caso por aí além!

Todos conheciam o Jusoé (nunca soubemos o verdadeiro nome dele, mas era por este epiteto que o tratávamos!). Independentemente do seu estado e situação sempre foi educado, muito educado.

Naquele tempo uma série de notas portuguesas estavam a sair de circulação, essencialmente notas de 20, 50 e 100 escudos. Estas últimas homenageavam três diferentes escritores, a saber: uma com a figura de Camilo Castelo Branco, outra com a de Bocage e a mais recente com a de Fernando Pessoa. As de 50 escudos tinham a figura da Infanta D. Maria.

Uma das minhas funções na caixa foi trocar estas notas, já em desuso, por dinheiro corrente. O que naquela altura equivalia a substituir papel por moedas já que haviam entrado em circulação as moedas e 100 e 200 escudos, para além das de 50 que já existiam havia algum tempo.

Entretanto o nosso amigo Jusoé tinha, por vezes, a estranha mania de querer as notas velhas, dando-nos em troca as moedas correntes. Ora como sabíamos que o sótão daquele cavalheiro era uma confusão, nunca lhe negávamos um pedido.

Naquele dia lá me apareceu ele, de negro vestido que nem tição queimado. Ou porque a roupa o era escura ou porque estava deveras suja. Aproximou-se como sempre da beira do balcão e naquela sua voz rouca e quase gutural, pediu:

- Bom dia… arranjava-me umas notitas do Fernando Bocage?

Percebi o erro, mas não o emendei. Peguei no dinheiro que me entregou e devolvi-lhe as notas velhas.

- Aqui tem…

- Obrigadinho… - e partiu contente.

No fim do dia, ao fechar a caixa, percebi que me faltavam 50 escudos. Refiz as contas e o saldo mantinha-se negativo. Acertei o saldo com dinheiro meu e fechei a caixa.

Estaria, no entanto, guardado para o dia seguinte a maior surpresa. Nesse dia, a meio da manhã entrou novamente o Jusoé pelo balcão, dirigiu-se à minha caixa e entrega-me de supetão uma moeda.

- Ontem fiquei com este dinheiro a mais…

Espantado com a atitude daquele sem-abrigo ainda escutei Josué dizer enquanto me virava as costas e saía:

- Desculpe-me…

37a9m25d - #8

Isto não se fax!

Quando entrei para a Tesouraria, esta vivia quase sem tecnologia. Não havia computadores, mas algumas máquinas de escrever já eram eléctricas. Um luxo!

As máquinas de calcular eram ainda antigas e pesavam quilos. Enormes e pouco práticas.

Mas tudo mudaria em breve.

De um dia para o outro ou quase, a informática invadiu as caixas e as velhinhas máquinas de somar e diminuir foram rapidamente substituídas por pequenos visores de ecran preto e letras verdes.

Se para mim foi uma óptima evolução, para os mais antigos as coisas pareciam mais complicadas. No entanto a evolução não foi somente nas caixas. A forma de comunicar com outros departamentos também sofreu alterações especialmente quando se começou a usar o… fax.

Costumo dizer que sou do tempo do telex, mas o fax transformou-se num salto qualitativo enorme.

Um dia foi colocado em cima de uma secretária um equipamento de fax. De teclas aquele foi recebido com algum interesse. Só que a determinada alguém descobriu que podía ligar-se para um qualquer telefone, mesmo que não fosse fax que se ouviria alguém do outro lado a responder. Foi o suficiente para o pobre Júlio cair na esparrela.

Este colega tinha alguma idade e era sem dúvida um homem bom. Não era a principal vítima de algumas partidas, mas daquela vez colocou-se a jeito e como ninguém perdia uma oportunidade…

Naquele dia o Júlio dá conta do novo aparelho. Sabia que era um fax, todavia não conhecia o conceito de funcionamento. Assim:

- Isto é que é um fax?

- Nem mais - respondeu alguém.

- E é por aqui que se enviam os papéis?

- Exactamente.

- Como?

Pronto… estava montada a partida. Faltava somente o resto.

- Então tu ligas através deste teclado para a Lili (a telefonista permanente da empresa!), esperas que ela te atenda e depois pedes para transferir para o outro lado…

Pouco convicto….

- Então e depois?

Receando que ele negasse à coisa alguém avançou:

- Liga lá para a Lili que depois fazemos o resto…

Convencido o Júlio carrega nas teclas numéricas do aparelho e aguardou. Rapidamente responderam:

- Boa tarde…

Eis que o Júlio começa a falar para um suposto microfone no aparelho:

- LIli é o Júlio da Tesouraria…

- Está lá…

- Lili?

- Estou…

- Lili? É o Júlio…

Ainda escutou a telefonista dizer:

- Que gente parva esta que liga e depois não fala!

37a9m25d - #7

Simpáticos cágados

A minha vida profissional ensinou-me que há um objecto em todas as secretárias muito, mas muito importante. Chama-se pesa-papéis e acreditem que sem eles a empresa onde trabalhei seria muito mais desorganizada.

Encontrei aqueles objectos de muitos géneros e feitios. Alguns deles retirei-os do lixo quando se iniciou a desmaterilazação dos documentos. Todavia guardei-os como mera recordação.

Como estes aqui:

pesapapeis_vidro.jpg

Porém num Departamento por onde andei havia outro tipo de pesa-papéis.

Eram de metal, alguns sendo pequenos rectângulos de ferro escuro. Contudo os mais conhecidos eram os cágados também eles de ferro.

Os simpáticos bichinhos de metal tinham as suas quatro patas destacadas do corpo o que originava que se caíssem no chão poderiam partir algumas das patas mesmo sendo metálicas. Foi o que acabou por acontecer à maioria deles...

Até que um dia o responsável máximo achou que seria de todo conveniente a substituição dos pesa-papéis defeituosos. Deste modo a secretaria do Departamento preencheu um pedido:

"Requisita-se a entrega a este Serviço de 12 pesa-pápeis, conforme exemplar em anexo."

Quando passado algum tempo chegou a caixa com os novos exemplares de pesa-papéis logo se percebeu que algo não estava bem: todos os exemplares só tinham três pernas.

Admirados com a situação indagou-se junto dos serviços competentes o porquê daquela insólita entrega. A resposta veio rápida:

-- O exemplar que nos enviaram também só tinha três patas!

Tartaruga_s.jpg

Curiosamente muito mais tarde descobri no fundo de uma velha gaveta um cágado de quatro patas.

Tartaruga_c.jpg

Portanto uma raridade.

37a9m25d - #6

O Segismundo!

Pelas diversas empresas por onde passei encontrei sempre figuras pitorescas. Num lado foi o Anselmo um mal assumido homossexual, mas que tinha imensa graça e sempre disposto para pregar uma boa partida. Noutro havia um jurista que corria o Departamento todo a cumprimentar cada colega com um aperto de mão. Quando acabava era hora do almoço. E assim sucessivamente.

Porém o Segismundo bateu a todos. As suas ingenuidades levavam-no a cair nas maiores patranhas com uma infantilidade atroz e incomum para um homem casado. Quase todos os dias ao seu redor algo era orquestrado para que ele se espalhasse. Outras vezes era ele mesmo que se colocava a jeito de ser vítima.

Há tantas histórias com o Segismundo que só ele dava quase um livro. Entre muitas que ouvi contar e outras que assisti há uma que sobressai e que reza assim.

Havia entre os diversos colegas um que era filho de um reconhecido médico e por isso foi certa vez abordado, um pouco à socapa, pelo Segismundo:

- Chico, preciso falar contigo uma coisa importante.

- Diz lá companheiro.

- Bem… é que… sabes…

- Ó homem desembucha!

- A minha mulher vai ter que fazer um exame…

- E…

- Daqueles ao peito!

- Ah uma mamografia?

- Isso… E sabes como é… ela nunca fez… está com medo…

- Oh Segismundo diz a ela para não se preocupar. Isso é uma coisa corriqueira.

- Achas?

- Claro… A minha mulher também já fez.

- Ah sim… E que tal?

- Aquilo não custa nada…

- Ah, ainda bem…

- Só há um pormenor…

- Qual é?

- Quando forem mexer na mama da tua mulher tu não deixes…

- Como assim?

- Então dizes que na mama da tua mulher só tu é que mexes…

- Tu achas isso?

- Com a minha mulher foi assim. Com a tua fazes como achares...

O Chico virou então as costas ao colega ciente de que este acreditara na mentira.

No dia seguinte ao exame o Segismundo passa pelo Chico e diz entre dentes com uma contida raiva:

- Só me arranjas é sarilhos!

37a9m25d - #5

Educar os mais novos

Uma saudação ou cumprimento não é nada que custe assim tanto a dar. Bom dia, boa tarde ou até boa noite parecem-me expressões simples de soletrar e não fica mal a quem as profere.

Mas desde que a empresa passou a receber no seu seio jovens acabadinhos de sair das faculdades com médias altíssimas, mas deficiente educação cívica, os casos de alguma má educação sucederam.

Fui “vítima” de um desses momentos já que certa manhã fui o último a entrar num elevador quase cheio. Quando o fiz dei obviamente os bons dias num tom de voz normal. Todavia os jovens doutores que me acompanhavam nesse transporte nem se dignaram responder.

Ora como tenho mau feitio e detesto ficar a remoer, olhei ao meu redor confirmando que estava rodeado dos jovens, puxei do meu vozeirão e:

- BOM DIA. Desculpem-me se vos acordei!

Quiçá assustados pelo timbre e potência da minha voz lá me responderam:

- Bom dia, bom dia, bom dia…

Contudo não foi este episódio que hoje aqui me trouxe, mas um outro protagonizado pela minha colega de gabinete.

Sempre tive o hábito de chegar cedo ao trabalho. Assim a meio da manhã decidi ir tomar um café. A máquina encontrava-se no pátio dos elevadores e deste espaço seguia-se para os gabinetes ou… para as casas de banho.

Quando cheguei estava uma jovem menina, jurista por formação, à espera que a máquina lhe fornecesse o café. Dei os bons dias, que ela não devolveu. Desta vez não estava virado para a educação e deste modo nada disse. Coincidentemente a minha colega de gabinete saiu logo atrás de mim e dirigiu-se para a casa de banho das senhoras. Passando por detrás de mim e da jurista cumprimentou com um sonoro:

- Bom dia!

A menina voltou a não dizer nada. Esperou que o copo enchesse de café. Entretanto a minha companheira de gabinete percebendo que a outra nem se dignara responder e antes de chegar à casa de banho deu meia volta e voltando-se então para mim comentou:

- Ou é surda ou é muda!

E regressou ao gabinete.

Eu nada acrescentei, mas percebi um evidente rubor em alguém!

37a9m25d - #4

O Guilherme Mota

Não me lembro onde é que ele estava quando, naquela manhã, o conheci, mas entre nós nasceu logo uma enorme empatia que se transformaria em amizade, acima de tudo por partilharmos o mesmo amor clubístico. Pode parecer pouco, mas nestes locais onde se passava grande parte do dia isso também era importante.

O Guilherme era um homem bom. Especialmente para os outros... já que não se poderia dizer o mesmo para a sua própria família. Recordo a este propósito e dito por ele, que a mulher só o poderia procurar ao fim do terceiro dia de não aparecer em casa. Até lá...

De compleição baixa o Mota aos 45 anos parecia ter mais de 60. Cabelo branco, rugas cavadas e exibindo uma redonda e proeminente barriga, este colega tinha um grave problema e do qual derivavam outros: era alcoólico.

De tal forma que bastava ao almoço beber um dedal de vinho para que ficasse completamente bêbado. Havia quem dissesse, em tom de estranha brincadeira, que nas suas veias o álcool que lá corria tinha um pouco de sangue.

Tinha outrossim uma noção de economia doméstica muito própria. No final de cada mês ia ao seu Banco levantava todo o dinheiro do ordenado que colocava inteirinho na carteira para logo que saía do trabalho passar pela primeira cervejaria e gastar algum em marisco e cerveja.

Entretanto em casa a mulher e o filho lutavam para sobreviver. Muitas vezes lhe disse que deveria parar, mas ele não gostava nada de me ouvir.

Depois quando já não havia dinheiro arranjava uns esquemas esquisitos para auferir algum, mas aquele era sempre pouco para o nível de vida que fazia.

Morreu cedo com um cancro na garganta devido ao tabaco. Quiçá a sua morte terá sido a salvação da família.

Bom, mas com o Guilherme aprendi coisas fantásticas e passei momentos absurdos…

É um desses que vou agora relatar.

Estávamos a 23 de Maio de 1984. Um colega fazia 25 anos e convidou-me para a sua festa de anos que se realizou num bar em Alfama. Nesse tempo vivia no outro lado do Tejo e não tendo carro teria de sair a tempo de apanhar o barco para Cacilhas. Todavia quando olhei o relógio tive pouco mais de 5 minutos para me colocar no velhinho pontão do Cais do Sodré. Muito corri pelas ruas ribeirib«nhas da cidade, mas não cheguei a tempo. Passava pouco da uma da manhã e o Cacilheiro já havia zarpado. Entretanto o próximo barco seria somente às 3 e meia da madrugada. Tempo a mais para estar à espera.

Encontrei então outros atrasados e começámos a tentar arranjar um táxi que nos levasse para a margem Sul. Sempre seria uma despesa a dividir por 4. Faltava somente uma pessoa. De repente olho para uma rua estreita que desembocava no terminal e vejo o andar de alguém conhecido.

- Guilherme?

- Que fazes aqui? – perguntou ele com a voz muito atabalhoada do alcóol.

- Perdi o barco da uma… estava a ver se arranjávamos 4 pessoas para apanharmos um táxi… Queres ir?

- Claro…

Encontrada a equipa, lá apareceu um taxista que curiosamente acabara o serviço e morava também do outro lado do Tejo. Lá partimos… não sem que o Guilherme me pedisse emprestado dinheiro:

- Empresta-me 500 paus…

Dei-lhe o dinheiro sem mais perguntas. Durante a viagem conversámos e o taxista foi-nos deixando em cada lugar: o primeiro na Cova da Piedade, eu no Laranjeiro, o terceiro ficou em Corroios e o Guilherme sairia em Vila Nova, já bem perto da Caparica. Fizemos as contas e o último ficou com a parte de cada um para pagar a corrida ao taxista.

No dia seguinte coincidentemente fui trabalhar para o lado do Guilherme. Mas nada comentei sobre a madrugada anterior… Provavelmente m«nemse lembraria, pensei eu.

A meio da manhã diz ele:

- Toma os quinhentos paus que me emprestaste ontem…

Admirado com a rapidez do pagamento da dívida, que não era costume, não consegui evitar um:

- Já?

O esclarecimento veio logo sem lhe pedir…

- Depois de Corroios fomos até à Caparica beber umas imperiais.

- Àquela hora?

E sem ligar à minha questão:

- Acabou depois por me levar a casa e nem quis o dinheiro do frete.

Só pude rir e pensar: o Guilherme no seu melhor a abotoar-se com algum!

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