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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

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Resposta ao Rei Bacalhau

O Blog www.Reibacalhau.blogspot.com deu-me o seguinte mote: Um assassino que matava pessoas nu. Entretanto publicou na sua página um texto debaixo desse tema.

Hoje é a minha vez de responder com o conto que segue:

 

O “Assassino Nu”

Era uma daquelas noites geladas próprias de um Inverno rigoroso. O vento soprava brando mas suficiente para arrefecer quem àquela hora deambulava pela rua. Não havia abafos que chegassem para tapar tanto frio. As luvas eram insuficientes e o cachecol apenas amenizava a friagem.

Olhei o relógio de pulso e confirmei o meu palpite:

- Duas e meia.

Se bem que estivesse numa zona de passagem de diversos transportes públicos, ainda assim o movimento era quase nulo àquela hora. Mas também não me apetecia estar em casa a olhar para a televisão ou no mínimo a ver pornografia na net e o sono era escasso. Desde que o chefe Arcílio me atirara para as mãos este caso, nunca mais tivera descanso. Cinco mortes em menos de duas semanas e todas perpetradas naquela praça. E agora ali estava eu à espera de alguém com intenção de matar outrém.

Do caso não havia pistas nem testemunhas. As vítimas não tinham qualquer relação umas com as outras, apenas a coincidência de passarem por aquele local a horas tardias. Três mulheres e dois homens: uma secretária de administração que devido a trabalho excessivo saíra demasiado tarde, uma prostituta que por aqueles lados procurava algum cliente e uma jovem estudante de engenharia que estivera até tarde num bar com amigos a comemorar o fim do curso. Os homens eram um sem abrigo e um segurança de uma empresa que acabara o turno.

As vítimas apareceram todas degoladas de um só golpe, conforme opinião do médico legista, o que demonstrava destreza e força conquanto as senhoras fossem mais fracas, os homens eram pujantes, mesmo o sem-abrigo.

A praça era relativamente bem iluminada, especialmente ao centro onde alguns projectores incidiam os seus focos numa estátua. De volta alguns edifícios do estado e outros prédios onde se encaixavam diversas famílias. Era na entrada de um desses casarios que me encontrava á espera de não se de quê e muito menos de quem. Apeteceu-me um cigarro. Andava a tentar deixar de fumar havia semanas mas sem efeito. Meti a mão ao bolso saquei do maço, retirei o cilindro branco e levei-o à boca. Com o isqueiro tentei acender o cigarro mas a brisa mesmo ao de leve não autorizava. Após diversas tentativas sem resultado, acabei por virar costas à praça e finalmente acendi o paivante.

Quando me virei novamente para a praça vi o que jamais esquecerei. Na minha frente a um metro de distância estava um homem completamente nu. Uma enorme arma branca em riste ameaçava a minha integridade física. Surpreso mais que temeroso fui dizendo:

- Ei, ei. ei, calma aí o que é que se passa?

Perante a questão o meu antagonista aproximou-se de mim ainda mais e pude ver que os seus olhos eram claros, muito claros. Tinha um olhar exangue, quase lunático. Desprovido de qualquer pêlo de alto a baixo, acima de tudo o que me admirei é que ele não parecia ter frio naquela noite tão gelada. Depois encostou o fio da enorme faca ao meu pescoço e perguntou-me:

- O que fazes aqui a esta hora?

A voz dele era rouca. Não sei se de propósito ou natural. Carregou ligeiramente no erre o que me fez pensar que seria de Setúbal. Mas poderia ser também um disfarce. Logo calculei que este seria o assassino das outras cinco vítimas e que claramente não sabia que eu era polícia. Porém a minha vida dependeria da minha resposta. Debaixo do casaco tinha a minha arma mas não sabia como lá chegar. Breves segundos para decidir.

Calmamente como se ele não estivesse armado puxei duma passa do cigarro aspirei o fumo e expeli-o vagarosamente. Depois respondi:

- É pá eu sou como tu… Não tinha sono e apeteceu-me vir para a rua fumar um cigarro e apanhar frio… Sabes como é a vida… Um tipo mata uma data de gajos e gajas e ninguém dá valor… É uma porra…

Enquanto falava fui tentando arranjar posição, primeiro para escapar ao cerco especialmente ao enorme facalhão que sentia junto á minha jugular, segundo para poder chegar á minha fusca. De súbito vi os botões das campainhas das casas e sem que ele percebesse encostei as mãos às campainhas. Durante a noite reparara que sistema não tinha microfone nem altifalante e assim se eu tocasse insistentemente o mais provável era alguém descer as escadas para refilar.

Mas ele percebeu a marosca encostou mais a lâmina e avisou-me:

- Larga a campainha, já!

- Ok, ok! Desculpa nem percebi…

Ele insistiu:

- Que fazes aqui a esta hora?

Percebi que ele não entendera a minha resposta. Mudei de táctica:

- Não digas a ninguém mas ando fugido da minha mulher. Ela quer-me lá em casa mas eu já não consigo aturá-la.

Pela primeira vez viu-o arregalar os olhos e abrandou o encostou da arma. Nem esperei por nova pergunta. Continuei:

- Soube que mataram cinco pessoas aqui. Estava a ver se via o tipo ou a tipa que fez isso para combinar com ele para matar a minha mulher. Já não a aguento… É um martírio viver com aquela bicha…

Respirei fundo e aguardei os momentos seguintes. De súbito ele recuou ficando fora do resguardo da entrada do prédio e olhou para os dois lados. Levei novamente o cigarro à boca e nesse instante ele desapareceu.

Num ápice consegui pegar na arma e corri atrás dele. Mas ele era muito mais rápido que eu e num instante desapareceu nas ruas e na noite.

Refeito do susto peguei no telemóvel e liguei para o meu gabinete. Ao fim de uma dezena de toques alguém atendeu:

- Tou, quem fala?

Conheci a voz e respondi:

- “Pulgas” é o Patrocínio. Já sei quem matou estes gajos aqui na praça…

- Quem é?

- Não sei como se chama, mas anda completamente nu.

- Nu?

- Sim nu. E com este briol imagina… Ele atacou-me mas não sei porquê fiquei vivo para poder contar.

- E ele fugiu?

- Sim escapou por entre as ruas da baixa. Era muito mais rápido que eu. Mas amanhã estou aqui outra vez.

- Queres que mande para aí uma patrulha?

- Não deixa estar. Amanhã vai ser outra noite.

Na noite seguinte lá estava eu à mesma hora, com a mesma roupa aguardando um assassino nu. O chefe queria que eu trouxesse apoio, mas eu recusei. Se tinha escapado da primeira vez mais facilmente escaparia agora. Mas o “Assassino Nu” não veio. Voltei na noite seguinte mas também não tive sucesso. Só à quinta noite voltei a vê-lo. Desta vez estava preparado para o receber. A minha mão achava-se enfiada no bolso esquerdo que escondia a pistola. Na direita ardia o cigarro. Fiz-me de distraído quando ele me abordou. Vinha completamente despido, descalço e sem qualquer penugem. Não sei se ele me conheceu mas carregou na mesma questão:

- Que fazes aqui a esta hora?

Regressei à última táctica:

- Estou à espera de alguém capaz de matar a minha mulher.

- Ela está aqui?

- Não tá em casa a ver a telenovela. Porquê?

Aproximou-se mas quando se chegou junto a mim percebeu a minha pistola dissimulada no bolso. Recuou e escondeu a faca nas costas e lançou:

- Sabes quem matou as outras pessoas?

- Eu não? Tu sabes?

Ele riu-se mostrando uns dentes muito brancos. Depois esgrimiu a faca à minha frente e confessou:

- Fui eu… Com esta menina.

Eu não queria desapontá-lo. Percebi que ele já não me mataria, por enquanto, e assim tentei esticar a corda:

- Então és tu que me podes ajudar a matar a minha mulher?

- A tua mulher, a tua sogra… quem tu quiseres. Até a ti - acrescentou.

- Hum isso é interessante. E quanto é que isso me vai custar?

- Nada eu faço-o por prazer. Mato porque gosto…

- Então escuta…

                                                                    XXX

No dia seguinte muito cedo tocou o meu telemóvel. Era o “Pulgas”:

- Que foi meu? Sabes que horas são?

- É pá desculpa…  Mas é para te dar uma má notícia.

- Que foi?

- Mataram o Arcílio.

- O Chefe?

- Sim, foi degolado!

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