A manhã acordou tristonha mas depressa as nuvens desapareceram e deram lugar ao sol com a sua natural força da Primavera.
Após uma primeira tirada de 10 quilómetros chegámos a Coz onde nos surgiu uma igreja fantástica. Quem a vê de fora não tem a noção de beleza que encontramos lá dentro. É surpreendente o altar em talha dourada e os azulejos.
Aqui rezaram-se as laudes e daqui partimos para o almoço que decorreu em Castanheira com direito a bancos corridos e longas mesas.
O dia começou a aquecer e a travessia pela "estrada de argila", assim denominada devido aos enormes buracos de extracção de areias e pedras e ao movimento de grandes camiões, previa-se complicada.
Cheguei a Pedreiras muito cansado. Mas o pior estaria para vir... Sem saber como acabei por sofrer um traumatismo no músculo da perna direita... a mesma que já tinha apresentado dores logo no primeiro dia.
Após a eucaristia veio o grande desafio da tarde com a subida da serra de forma a chegar a Porto de Mós ainda de dia. Uma tarefa que me custou imenso tais eram as dores na perna. Cheguei em último lugar não por culpa da minha perna mas porque vim a ajudar uma paregrina com evidentes dificuldades em andar.
Tenho vindo a falar nos últimos textos da minha vivência como peregrino. Uma experiência sempre marcante tanto no aspecto físico (a dor na minha perna não me larga) como no aspecto interior.
Na missa de hoje o padre iniciou a sua homília com o seguinte mote: "A fé faz-se a caminhar..." Fiquei realmente a pensar nestas palavras... Fé? E o que é isso da fé para a maioria das pessoas mesmo as crentes?
Creio já ter referido por aí algures que a fé não é algo que se compre em alguma igreja ou santuário. A fé é algo que se sente e acreditem meus amigos que ter fé dá (muito) trabalho. É, quiçá, das poucas coisas que não se explica com palavras apenas com actos, gestos, posturas e acima de tudo uma total entrega aos outros.
Quando parto para uma peregrinação não o faço por qualquer promessa (mas assumo que já o fiz!) mas somente para estar alguns dias longe de um Mundo triste, enraivecido e em permanente guerra... contra si mesmo!
Os dias que passo a andar, a ler o Evangelho ou somente a rezar, obrigam-me a olhar para dentro de mim mesmo e procurar no meu coração a razão para a minha caminhada. Como costumo muitas vezes dizer: "Não sei porque ando, mas Deus sabe!"
É esta permanente tentativa de descoberta dos verdadeiros trilhos (leia-se sentidos) da fé que me põe a caminho do Altar do Mundo.
Hoje neste Domingo de Páscoa prestes a terminar, desejo aos católicos e não católicos que encontrem a fé dentro de vós mesmos. Esse, quer queiram quer não, é o designío de todos nós. O problema é que há muitos que (ainda) não o sabem!
O pavilhão é demasiado grande. As senhoras tiveram sorte com as casas de banho por não terem de passar pela rua.
Montei o meu lugar bem largo para poder abarcar o J. Homens de um lado, mulheres do outro.
Quando fui para tomar banho a confusão era tão grande que preferi aguardar para depois do jantar. E fiz bem, pois nessa altura já não havia ninguém a usar os chuveiros e pude lavar-me em descanso.
De volta ao meu lugar percebi que um dos meus colegas da primeira noite estava mais ou menos afastado de mim, todavia na fronteira entre os homens e as mulheres.
O dia havia-se sido repleto de belos e profundos momentos. Aproximava-me de Maria Santíssima. Bastou isso para me dar alento para o dia seguinte. As dores haviam entretanto diminuído muito à custa de eficazes anti-inflamatórios.
A meio da noite, quando já todos dormiam, percebi movimentação no lado das mulheres... Algumas fugiam do peregrino barulhento para um lugar mais sossegado. Uma delas era a minha mulher.
A hora havia mudado nessa noite o que equivalia dizer que acordei ainda mais cedo do que o habitual. No dia anterior havía percorrido 35 quilómetros e percebi que alguns peregrinos começavam a dar sinal de alguma fadiga. Mas ninguém desistiu. E partimos todos. Após bons quilómetros por entre pinheiros e eucaliptos cheguei a Salir do Porto, onde na igreja em honra de Nossa Senhora da Conceição de Salir se rezou a primeira oração da manhã. Parti de seguida para a bela vila de S. Martinho do Porto. No cimo desta começámos a subir as diversas serras em silêncio e com leituras para ajudar.
De súbito do cimo da serra novamente o mar e ao fundo pode-se vislumbrar a bela praia da Nazaré. Após o almoço partimos uma vez mais, desta vez encosta abaixo. Breve pausa para reagrupar e partida em comunidades para rezar o terço. O meu grupo acabou-o mesmo junto ao porto da vila. Depois com calma atravessámos todo o passeio marginal e após mais uma pausa começámos a subir a íngreme escadaria que nos levou ao Sìtio da Nazaré, onde a tradição da Lenda de D. Fuas Roupinho é rainha.
Era Domingo de Ramos. Como é hábito foi oferecido a cada peregrino um ramo simbolizando os ramos com que brindaram Jesus na sua entrada em Jerusalém. Benzidos pelo Padre J. foi tempo de eucaristia. O santuário é deveras bonito, a homília sempre tocante aos corações, não se evitando por vezes as lágrimas. Finalmente a surpresa: a visita à genuína Nossa Senhora da Nazaré, incrustada no alto do altar. Uma imagem muuuuito velha mas carregada de simbolismo.
Foi tempo de descer a imensa escadaria. Mas valeu a pela. A paisagem é deslumbrante mesmo na descida.
Chegou-se ao pavilhão paroquial já era quase noite. Desta vez tive menos dores.
Como fui o último a chegar acabei por ficar na sala onde se encontravam os homens, junto à porta. A dor que me começara a atormentar quilómetros antes continuava, crescendo mesmo. De tal forma qque a determinada altura tive dificuldades em estar de pé.
Após o banho com água quente, que me soube divinalmente e enquanto se aguardava a chegada do jantar, acabámos por rezar a oração da noite (completas). O repasto apareceu mas rapidamente me meti no saco cama. Necessitava claramente de dar descanso à perna.
A noite previa-se complicada tal eram as dores que sentia. Mal imaginava eu que o meu vizinho do lado direito, o Manuel Francisco, escuteiro há muitos anos, me haveria de brincar com uma noite de roncos com palavreados a meio. Mais uma noite a dormir (muito) mal.
O desafio infra foi-me proposto por Just Mom. Não pude responder logo de seguida mas já aqui estão as minhas respostas. A música tem sempre um lugar muuuuuuuito especial na minha vida.
Se não conhecerem algumas procurem no youtube.
Só mais uma coisita. Obrigado Sandra.
5 músicas que me deixam triste.
What a wonderful world - Louis Amstrong
Rien de rien - Edit Piaf
Estrela da tarde - Carlos do Carmo
Everyday - The Slade
Changes - Black Sabath
5 músicas que me alegram
You are the one that I want - John Travolta - Olivia Newton-John
Eu gosto é do verão - Fúria do Acúcar
Fool's Overture - Supertramp
My sweet Lord - George Harrison
Highway Star - Deep Purple
5 músicas que me dão vontade de dançar
Lets Twist again - Chubby Checker
Thriller - Michael Jackson
Jump - Van Halen
Crocolile Rock - Elton John
Staying Alive - Bee Gees
5 músicas que me fazem sonhar
Annie's Song - John Denver
Stand By me - Ben E. King
I not in love - 10CC
The winner takes it all - ABBA
Every breath you take - The Police
5 músicas que me marcaram
Yesterday - The Beatles
Wish you were here - Pink Floyd
Money for nothing - Dire Straits
Bohemian Rapsody - Queen
Hey tonight - Creedence Clearwater Revival
Quanto a desafiados, sintam-se todos os que me lêem, desafiados. Deste modo não esqueço nenhum.
PS - este texto foi editado hoje dia 5 de Abril, porque me esqueci de nomear as "Canções que me alegram". Desculpa Just Mom. Creio que agora está tudo como deve ser.
Este será, segundo as estatísticas da Sapo o post nº 1000. Numa sexta-feira da Paixão de Cristo. Não há mesmo coincidências mas "Deuscidências".
Poderia falar do que foi a minha vida neste espaço, a minha relação com os leitores e comentadores, das amizades que aqui fui cimentando. Mas não vou escrever sobre isso...
Curiosamente ou não ontem à noite recebi uma mensagem de um velho amigo que está distante. Um homem que vê a fé através de outros olhos, um homem que marcou para sempre a minha vida. Por isso nada melhor que reproduzir, com a devida vénia ao autor, a sua mensagem.
Sinto-me humildemente grato pelas palavras que escreveu, daí divulgá-las aqui. Bem-haja A.
"Venho desta forma desejar-lhe uma Santa Páscoa na vivência do mistério da Vida na fé. Desejo que este tempo que agora vamos viver seja tempo de contemplar o grande mistério que é a vida e com ele percebamos a grandeza da existência e o quanto ela é bela. Mergulhamos no mistério do sofrimento, da dor para nos reerguermos para um novo modo de viver, libertados de amarras que nos escravizam e nos paralisam, atrofiando a beleza da liberdade. Que o mistério pascal seja uma verdadeira passagem para uma nova forma de encarar a vida com o que ela tem de belo e eloquente. “Morte e Vida combateram, um duelo tremendo mas o príncipe da vida reina vivo após a morte” – da sequência Pascal Creio, que a nossa existência é este permanente duelo, em que umas vezes a morte aparentemente vence e reina através da escuridão, mas a fé diz-nos que a palavra final é a da Vida que é Jesus em quem acreditamos. É esta vida que quero partilhar consigo e agradecer-lhe a sua presença amiga na minha peregrinação terrestre. Partilhar a vida numa oblação permanente é a dádiva que podemos fazer de nós mesmos, levando ânimo, esperança e alegria renovada à vida dos que se cruzam connosco. Mesmo quando tudo é fugaz. Aprendemos sempre e tudo nos ensina. Obrigado por o fazer comigo. Santa Páscoa e que Jesus Luz ilumine todos os recônditos da nossa existência. Grande abraço amigo"
Não calculo a que horas nos levantámos, mas era decerto muito cedo, já que o dia ainda não despontara. Com a tralha toda arrumada dirigimo-nos para a velha igreja onde na noite anterior havíamos rezado "as completas". Soprava um vento frio e cheirava a mar.
O dia começou assim com a eucaristia, momentos sempre profundos e pungentes. Quando saimos da capela erguida em honra de Nossa Senhora dos Remédios, já era dia. E a maior surpresa surgiu a seguir com o caminho a ser feito ao lado do mar sempre belo, mesmo que a aurora aparecesse plúmbea. Ao longe percebia-se na penumbra da manhã as Berlengas.
Um vento forte trazia-nos o cheiro do Atlântico que batia nas rochas com vigor. A primeira paragem foi na Capela de Nossa Senhoara da Guia em Ferrel onde lemos as laudes (oração da manhã) e pela primeira vez foram definidos os grupos.
Após uma paragem para o almoço retornamos ao caminho para mais à frente iniciarmos o terço rezado em grupo. Cheguei a Nadadouro em último. Eram sete da tarde pois iniciara-se a minha primeira "lavagem" com o Padre J.
As partilhas que fui escutando durante este dia foram tão fortes e arrebatadoras que acabei o dia de coração pleno de alegria e de esperança. E surgiu a primeira dor!
Não pretendo fazer destes textos um diário do que me aconteceu nos últimos dias, pois seria, naturalmente, demasiado exaustivo. Apenas desejo relatar, em breves palavras, mais uma experiência inolvidável vivida na Semana da Paixão e Ressurreição de Jesus.
Noite 1
A noite começa com uma mui breve cerimónia presidida pelo Padre F. e acaba já muuuuito tarde no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Peniche. Ainda assim deu para ler as laudes numa capela bem antiga, acolhedora e repleta de peregrinos sedentos de escutar a palavra de Deus.
A noite não foi das mais felizes. Um dos meus vizinhos era o J. todavia do outro lado tocou-me um peregrino bem "sonoro", quiçá com alguns problemas respiratórios pouco habituais em jovens como ele! Um verdadeiro caso de sucesso dentro da Peregrinação.
Tive(mos) grandes dificuldades em adormecer. Valeu-me a minha surdez para conseguir descansar.
Iniciou-se deste modo, mais ou menos atribulado, a peregrinação a Fátima deste ano!
Cinco noites e cinco dias depois eis-me de regressao à "civilização".
Peregrinar, já o disse algures, não é para todos. E se julgam que o pior são as bolhas, as dores nos músculos ou somente o cansaço desenganem-se... pois o que mais dói é aquele despegar do "tarro" que durante um ano andámos a juntar nos corações.
Neste primeiro texto sobre a minha peregrinação quero publicamente agradecer a algumas pessoas, por aquilo que me deram sem saber:
- Obviamente que a primeira pessoa será a minha mulher M.
- Depois o J. um companheiro de viagem a quem muito agradeço as boas horas que passámos (com e sem V. líquido).
- Segue a M. "meia-dose" de boa gente. Ela e a minha M fizeram uma equipa... fabulosa.
- à S. pela partlha. Obrigado!
- Ao Padre J., um exemplo de como a fé deve ser transmitida e espalhada. Um verdadeiro missionário... na civilização... urbana
- Por fim a toda a equipa de apoio (sem excepção) pela forma sempre disponível como me (nos) trataram.
Não sei se regresso ao caminho no próximo ano, mas este ano valeu por muuuuuuitos anos...