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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Diário de um (quase) agricultor – VI

O fim nem sempre é o terminus de tudo, por vezes é apenas o inicio de um novo ciclo.

 

Dia 6

Ainda não eram sete da manhã e já me encontrava à porta do lagar. Perspectivava-se um longuíssimo dia. A experiência de anos anteriores acordava-me para uma realidade já conhecida: um dia inteiro perdido entre o barulho das máquina e as conversas de outros produtores.

Disse o meu avô que foi lagareiro há muuuuuuitos anos: a oliveira dá a azeitona mas é o lagareiro que dá o azeite. O problema é que novamente a tecnologia não é fiel a esta antiga máxima (ou será?). Os lagares de galgas e sarilhos e prensas foram substituídos, na sua maioria, por moedores automáticos e por máquinas centrifugadores que conseguem em poucas horas separar o azeite do azenagre de toneladas de azeitona.

Os lagares são cada vez menos. Uma industria sazonal que vive essencialmente da moagem de pequenas produções.

Não obstante a minha colheita não ser de grande quantidade, tendo em conta anos anteriores, ainda assim parecia-me qualitativamente, entre as carradas negras que via passar, a menos má.

Mas foram necessárias onze longas horas para ver finalmente a minha produção subir o tapete rolante.

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Um nervoso miudinho começou a embrenhar-se. Em breve saberia como funde a azeitona. A maioria de outros produtores queixa-se que este ano funde mal... dá pouco azeite... Culpa do tempo que secou a azeitona ou do lagareiro. A resposta paira furtivamente no ar...

Depois de lavados, os bagos negros caem num pio de lâminas afiadas e sempre em movimento, quase sem fim. A massa surge agora castanha e de cheiro activo. Espreito a moagem, aguardo a resposta...

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E quando esta finalmente surge através de um pobre fio esverdeado, a minha aventura dos últimos dias tem finalmente o seu epílogo. Durante longos minutos o azeite corre daquela bica. Quente, porém saboroso e saudável. Fora para isto que me levantei mais cedo todos os dias passados, que trabalhei até o sol se pôr....

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Contas feitas no final o coração alegrou-se-me com a quantidade de azeite deste ano. Uma média fantástica a pedir meças àqueles que costumam tratar as oliveiras com todo o tipo de produtos.

Regressei a casa já noite muito cerrada carregando mais litros de azeite do que no meu melhor prognóstico poderia adivinhar. Afinal sempre há finais felizes.

Agora tudo recomeça. As oliveiras despidas dos ramos velhos e da azeitona negra, iniciam um novo ciclo. Até para o ano seguinte!

Na agricultura o fim é somente um novo princípio.

Diário de um (quase) agricultor – V

Na agricultura, tal como na vida, nem tudo termina em “fins felizes”.

 

Dia 5

A ideia de hoje era terminar esta saga da apanha da azeitona. Havia a consciência que a maioria da azeitona que ainda restava nas oliveiras não correspondia aos níveis de qualidade e quantidade que aquelas oliveiras nos haviam habituado. Deste modo o fito seria dar uma volta àquelas que pareciam ter mais e melhor e colocar um fim nesta aventura.

Já passavam das cinco da tarde quando as máquinas pararam. Especialmente a máquina de limpar azeitona (outra alfaia bem necessária). Um pequeno reboque ficou ainda assim repleto duma azeitona preta e verde e muita, muita seca e em mau estado.

 

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Por fim não pude evitar um lamento interior e perceber que a vida de um agricultor também é feita de dias menos felizes. Não é só a alegria de ver as culturas medrarem…

Diário de um (quase) agricultor – IV

 

Custa muito chegar ao fim de um dia de trabalho, olhar para a obra feita e esta resume-se a... quase nada.

Dia 4

Sabia de antemão que não iria ser um dia fácil. A azeitona deste novo chão estava miserável. Como num mês tudo se alterou. Em Outubro algumas oliveiras mostravam já a sua azeitona pintalgada de negro. Hoje nada do que vi no mês passado existia. Tudo fora substituído por um monte de caroços e bagos secos.

A nova varejadora eléctrica pouco valeu. Bago aqui, bago ali, tornou-se o seu manuseamento mais duro e obviamente menos eficaz.

Um primo afastado vai podando as oliveiras mais necessitadas e como o tempo tem andado fresco, aproveitou-se para queimar a lenha caída em troncos grandes das oliveiras velhas a requererem reforma.

A vida de um agricultor nunca é monótona. Nem a expressão “nada para fazer” se aplica em qualquer contexto.

Diário de um (quase) agricultor - III

A tecnologia ao serviço da agricultura nunca foi a minha “onda”. Todavia tenho de dar a mão à palmatória no que respeita a uma alfaia adquirida ontem.

 

Dia 3

Aguardava-me, pensava eu, uma manhã chuvosa, pelo menos assim previa a meteorologia, mas felizmente os meus receios não se confirmaram. A manhã estava fria sim, mas sem chuva e após o café matinal indispensável, reentrei no naco de terra atapetada de uma erva verde e ainda molha da madrugada muito húmida.

Desta vez municiado de uma nova alfaia. Uma varejadora eléctrica, apropriada para botar no chão os bagos de azeitona. Uma experiência que previa interessante. Eu  que sempre usara a as minha próprias mãos para colher azeitona, substitui-as agora por uma máquina.

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Custa-me admiti-lo mas a verdade é que a nova alfaia substitui com qualidade e rapidez as mãos humanas. De tal forma que algumas horas colheu-se a azeitona que de outra forma demoraria pelo menos mais um dia de trabalho para dois homens.

Mas colhe-se melhor se os ramos das oliveiras estiverem recheados.

 

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Só mais uma coisa… Os meus ombros doem-me!

 

 

Diário de um (quase) agricultor - II

Tomei hoje real consciência das minhas fraquezas. Julgava eu que uma qualquer chuva, a exemplo de anos anteriores, não me tiraria a vontade de trabalhar. Engano meu! Por isso considerei e alterei esta série de textos diários.

 

Dia 2

Acordei novamente muito cedo. Perspectivava-se um dia chuvoso. Na verdade assim que o dia clareou apercebi-me que do lado da serra altaneira e imponente as nuvens desciam encosta abaixo. Porém só às duas horas é que a chuva iniciou, cumprindo assim a promessa desde manhã.

Até lá regressei ao chão ontem iniciado. As oliveiras encostadas ao caminho são geralmente as piores de colher. As mantas passadas por cima da rede divisional a (in)constante passagem de viaturas e pessoas faz com que andemos um tanto apressados até despachar aquelas árvores.

Uma escada com dezoito degraus é a minha alfaia. Carregá-la não custa. O que custa é aconchega-la à arvore para que, eu ou outrem que a use, não tombe desamparado. O caminho público está quase atapetado de azeitona que caiu antes de ser colhida. É o preço deste tempo que não sossega.

A manhã, ainda assim, proporcionou seis sacos de azeitona em mau estado. Muito pouco para o que se esperava. Após o almoço a chuva fez a sua aparição e em força, devolvendo-nos a casa.

 

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O silêncio dos competentes

Tem pouco mais de três anos. Nasceu por ali sem eira nem beira, mas seguiu sempre a mãe. E foi com ela aprendeu tudo o que sabe.

Hoje, já crescido, é um excelente gestor de recursos. O melhor da região. Impõe a sua lei e as suas regras. Tem somente um amigo que segue por todo o lado e ao qual obedece sem temor.

Faça sol ou faça chuva a sua disponibilidade é total.

De nenhumas falas nunca teve qualquer nome…

É assim o cão do pastor!

 

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Diário de um (quase) agricultor

A pergunta não tem a ver com o diário em si mesmo mas somente com o agricultor. Serei realmente um homem do campo, não obstante ter nascido em Lisboa? Resposta difícil… E sem juiz para avaliar.

Mas vamos ao que interessa…

Dia 1

Acordei cedo, muito cedo. A noite ainda reinava mas ao longe podiam-se já observar os vislumbres do astro-Rei. A manhã estava branda mas muito húmida. Seria geada o que vi mais tarde num prado ou apenas o orvalho da madrugada?

Após o pequeno-almoço foi tempo de preparar a trouxa e zarpar. Esperavam-me um conjunto de vinte oliveiras bem tratadas, mas muito longe do povo. Todavia a carrinha levou toda a carga sem esforço. Escadas, panos, panais, sacos, baldes… ou seja um manancial de alfaias que dava para um rancho de homens. E no meu caso erámos só dois.

Com a rapidez possível a azeitona lá foi caindo nos panos previamente estendidos. As escadas encostadas às árvores parecem estruturas medievais de assaltos aos castelos.

Azeitona colhida, azeitona guardada em sacos. Mais tarde se limpará das folhas e dos ramos. Regressamos a casa para o almoço. Uma garrafa de jeropiga aguardava-me ao portão. Fico sem saber quem terá sido o simpático…

A tarde está boa. Não muito quente, sem frio até apetece andar pelo campo. A noite aproxima-se já a passos largos. Tudo para cima da caixa da carrinha… mais os sacos já com a azeitona colhida. A da manhã estava bem melhor que a da tarde! Mas há que colher toda.

Regresso a casa cansado. Isto de carregar uma escada pesada com 18 degraus não é fácil. E depois sobe e desce num vai-vém permanente.

Hoje vou-me deitar cedo. Algo que apenas faço nesta altura da minha vida.

 

Editado o título no dia 3 de Novembro

 

Tristeza no campo

Nasci em Lisboa. E por aqui vou vivendo a minha vida de "trabalhador por conta de outrém", até que a reforma chegue.

Só que a minha génese está claramente virada para o campo onde me sinto realmente (muito) bem. Reconheço que é duro a vida agrícola. E acima de tudo incerta. Muito incerta!

Estou por estes dias numa aldeia beirã. Terra humilde, pregada no sopé sul da serra da Gardunha, mas terra de gente boa e amiga.

Vim para cá para apanhar azeitona. Uma centena de oliveiras, centenárias algumas delas, são o pobre pecúlio deste que se assina. Mas sejam muitas ou poucos, há que botar para baixo os bagos negros.

Mas este ano... ai este ano... a tristeza tomou lugar no meu coração. No início de Outubro andei por aqui. A azeitona estava a querer amadurecer, alguns ramos vergavam ao peso de tanta azeitona... Um mês depois... a desolação. Mirrada, seca, picada da mosca, estragada, foi assim que vim encontrar as olivas neste dia Santo que já foi feriado.

Amanhã começa a faina. Triste sim mas empenhado. É assim que o camponês vive os seus dias!

 

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