Coisas (tristes) da vida
Crescemos quase sempre juntos. Quando ía a casa dele era como se fosse a minha e vice-versa.
Os nossos pais militares de carreira, andavam por esses mares fora em busca de sustento para a família.
As nossas mães sofriam de ausências e agruras pelas incertezas da guerra em África.
Mais velho que eu seis meses, mas de anos diferentes, acabámos por nunca andarmos na escola ao mesmo tempo. Ainda por cima ele sempre foi muito bom aluno e eu um cábula emperdenido. Depressa ganhou balanço e eu fiquei na cauda de um pelotão da vida.
Com ele, todavia, aprendi a gostar de música. Ouvíamos no seu gravador de bobines, igual a um meu, as boas canções da época que ele arranjava nem sei onde.
O meu amigo acabaria finalmente por se licenciar em Engenharia Agrónoma com nota de excelência.
Fui ao primeiro casamento dele e ele ao meu. A vida separou-nos mas eu jamais o esqueci. Nem à sua mãe Maria e ao seu pai Teodoro.
Pai este que partiu, ao que sei hoje, para a sua última viagem. Ele que palmilhou tantas léguas nesses oceanos da vida, embarcou finalmente num cruzeiro sem retorno.
Ao Mário, meu amigo de há mais de cinquenta anos, um abraço profundo de amizade.
Certamente que nunca lerás este texto... Mas lê-o o teu pai, esteja lá onde estiver.