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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Percursos de vida!

O único receio que tenho no futuro prende-se com a idade e com a respectiva e eventual falta de tino. Não temo as doenças nem as dores que possa vir a ter. O que realmente me aflige é perder o descernimento ou perder as memórias que tanto preenchem os meus dias.

Hoje, alguém muito próximo faz 87 anos. Uma já longa caminhada pela vida com diversos momentos altos e baixos, como acontece a qualquer um de nós.

Todavia percebo-lhe cada vez menos capacidade intelectual. Perde-se no tempo ou o tempo é que se perde nela. Os dias são sempre iguais. As noites nunca diferem. As memórias ocasionalmente veêm ao de cima, mas quase sempre dispersas, fugazes.

É disto que tenho medo... Desta fuga à realidade e ao momento presente.

Preferia viver menos anos e lúcido, que muitos anos, mas preso a uma realidade paralela.

A nossa idade

Hoje fui mandar cortar o meu cabelo. Estava eu já sentado e envolto em panos e toalhas quando reparo, através do enorme espelho, num casal que se aproxima do barbeiro.

O homem tem evidentes dificuldades em andar tal o conjunto de doenças que deve ter atravessado. Não fala pois a sua traqueia foi substituída por um buraco. A senhora que o acompanha tem um ar mais jovial e mais desembaraçada. Pensei para com os meus botões: Pai e filha!

Puro engano. O casal entrou na loja para que o meu barbeiro cortasse o cabelo ao cavalheiro. Na conversa que se seguiu a senhora afirma que estão casados há 61 anos. Portanto eram marido e mulher sendo que ela parecia muito mais nova.

Como é hábito nestes lugares a conversa, seja ela qual for, é sempre interessante. E esta não o foi menos. A senhora diz que tem 86 anos e que trabalhou até aos 77. Relata que se farta de estar em casa, mas percebo que com um marido naquele estado não deve ser fácil libertar-se...

Depois avança com uma ideia curiosa: detesta estar na companhia de gente que só fala de doenças e desgraças. Achei simpática a visão que transmitiu e que vai de encontro ao que penso: a nossa idade não é aquele que o cartão de cidadão apresenta mas somente aquela que o nosso espírito mostra.

 

 

Jovem na velhice!

A velhice será talvez a única coisa da minha vida que me assusta, isto se lá chegar.

Disse-me a minha avó uma vez há muitos anos: devíamos morrer novos! Na altura não percebi a razão desta espécie de vontade.

Porém hoje entendo-a. Provavelmente da pior maneira porque lido todos os dias com uma vetustez próxima. Ainda não é a minha… mas para lá caminho, inexoravelmente.

Aflige-me assim um dia tornar-me dependente de outros, especialmente dos filhos ou noras. De ter um qualquer ataque e ficar preso a uma cama ou pior… a uma máquina, de forma a poder sobreviver.

Tenho por isso cada mais consciência que a qualidade da minha velhice depende essencialmente da minha formação genética mas à qual se junta indelevelmente a forma como vou repartindo o meu dia. O que como, quanto como, o que bebo, quanto bebo, o que ando, quanto ando…

Assumo aqui e agora que não pretendo que me deixem ligado a qualquer máquina para que viva mais uns dias, semanas, meses, quiçá anos sem dar conta! Seria um desperdício de recursos…

A senilidade e a falta de lucidez são claramente os meus maiores receios num futuro a médio ou a longo prazo.

Entretanto dizem os especialistas que a forma de melhor contornar o definhar da mente é manter esta sempre pressionada, essencialmente com actividades novas. Deste modo guardo para a minha reforma um sem número de projectos que pretendo realizar.

O mais certo é nunca os realizar… Mas isso que me importa?

A idade pode também ser um estado de alma. E a minha é de um miúdo traquina.

O meu futuro é já ali

Olho para os meus pais já idosos e pergunto a mim mesmo, se na minha velhice serei assim? Eu sei que a idade tudo traz: o esquecimento, o desleixo, a vontade de sossegar, a impaciência...  um ror de coisas menos boas! E a juntar a tudo isto... menos saúde.

Por isso e tendo em conta que também caminho para lá (a velhice), tento já engendrar uma forma de evitar tais sensações. E uma das coisas é percebermos rapidamente que não justifica rodear-mo-nos de coisas inúteis e que só nos enchem a casa, a maioria das vezes sem qualquer proveito.

O meu faleciddo sogro, um homem bom e muito sábio, sempre que lhe perguntávamos se podíamos deitar algo fora ele dizia que não, sempre com a mesma resposta:

- Pode ser preciso para qualquer coisa...

E a verdade que muitas vezes recorriamos àquilo que pensávamos ser inútil.

Entendo que os mais velhos, quase todos habituados na sua juventude a ter pouco, plasmem ainda hoje esses sentimentos de poupança no seu dia a dia. É normal que assim seja.

Por isso tento desfazer-me dessa mesma matriz e tento, serenamente, conceber uma outra onde eu, na minha velhice, possa ser feliz tendo o menos possível. Sei que parece um paradoxo mas na realidade quanto mais temos menos somos.

Como já disse, nem sei onde, a felicidade é algo que não se compra nem vende. Simplesmente se conquista!

Será que só eu é que assisto...

Hoje mais uma história num supermercado. Perto das seis horas e tenho três compras para pagar. A fila é relativamente extensa mais vai-se despachando. À minha frente diversas senhoras aguardam tal como eu para pagar.

Reparo então numa idosa que chegou à caixa com um braçado de compras e tem com a empregada o seguinte diálogo:

- Boa tarde menina.

- Boa tarde - a empregada pega nas compras e começa a passá-las pelo leitor de código de barras.

Diz a anciã:

- Só tenho 3 euros. Destas compras todas escolha até esse valor.

A caixeira pegara logo num pacote de manteiga.Perante a limitação devolve:

- Mas ó minha querida, só este pacote custa mais que os 3 euros...

- Então esse não vai...

Demorou um pouco a escolha entre os produtos levados para a caixa, quase todos essenciais, aqueles que três meros euros podiam pagar. Finalmente.

- 2 e 71... - disse a menina da caixa.

A idosa entregou as duas moedas, recebeu o troco e levou os dois litros de leite, um pão e um chocolate nas mãos, porque os sacos também se pagam e são caros.

O resto? Ficou no supermercado!

Escutado na rua...

No ínicio.

 

Duas senhoras e um cavalheiro:

 

-   fez exames a tudo e agora estamos à espera dos resultados...

 

Mais à frente.

 

Duas idosas:

 

- ... cheio de febre, vomita e não aguenta nada no estômago...

 

Logo a seguir.

 

Dois homens e uma mulher:

 

- ... ninguém sabe dizer o que é... Já corremos médicos sem conta!

 

Num espaço de duzentos metros assisti, uma destas manhãs, a estas partes de diálogos. Não sei se as pessoas andam mais doentes que antigamente, mas que falam mais de doenças isso é certo!

 

Vá-se lá saber porquê...

 

Um desabafo e uma pergunta

 

Faz hoje precisamente um ano, era dia de Carnaval, que descobri que estava surdo. Um síndroma de surdez súbita que me surgiu sem haver uma razão aparente… A não ser talvez o sangue um tanto grosso ou os níveis de colesterol um pouco elevados. Portanto vascular!

Tratamentos com medicamentos e Câmara Hiperbárica por duas vezes (em Março/Abril e Novembro), não debelaram a minha deficiência. E assim no final do ano passado vi-me com uma prótese auditiva, que não sendo muito visível, deixou-me profundamente vergado a uma deficiência com a qual não tenho conseguido lidar.

Não fosse o apoio da família e de alguns amigos nem calculo o que seria de mim. Eu, que tenho por hábito ser um positivista, vi-me a determinada altura da vida, preso a um desafio para o qual não me encontrava preparado. E fiquei muito triste comigo mesmo.

Julgava eu, na minha idiota vaidade, que me conhecia totalmente. Porém, a vida tem destas coisas e coloca-nos tais questões, que dificilmente saberemos responder com propriedade a todas elas.

Um ano já lá vai! Surdo da ouvido direito, invisual da vista esquerda e carregando diariamente uma pequena caixa de plástico, onde todos os dias tento recuperar um pouco de saúde, estou finalmente a acordar para algo, do qual não tinha verdadeira consciência: a velhice!

Este foi o meu desabafo.

Fica então a pergunta a pairar: estaremos alguma vez preparados para sermos velhos? 

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