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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Percursos de vida!

O único receio que tenho no futuro prende-se com a idade e com a respectiva e eventual falta de tino. Não temo as doenças nem as dores que possa vir a ter. O que realmente me aflige é perder o descernimento ou perder as memórias que tanto preenchem os meus dias.

Hoje, alguém muito próximo faz 87 anos. Uma já longa caminhada pela vida com diversos momentos altos e baixos, como acontece a qualquer um de nós.

Todavia percebo-lhe cada vez menos capacidade intelectual. Perde-se no tempo ou o tempo é que se perde nela. Os dias são sempre iguais. As noites nunca diferem. As memórias ocasionalmente veêm ao de cima, mas quase sempre dispersas, fugazes.

É disto que tenho medo... Desta fuga à realidade e ao momento presente.

Preferia viver menos anos e lúcido, que muitos anos, mas preso a uma realidade paralela.

A vida (muitas vezes) é uma chatice!

Hoje fui almoçar com uns colegas e amigos de longa data. De diferentes idades, culturas e conhecimentos.

Todavia entre todos os presentes houve um que se destacou pela negativa. As vicissitudes da vida tornaram-no num homem assaz diferente.

Está mais distante, calado, amorfo, muito longe de alguém que conheci por dar a cara por causas e acima de tudo por estar sempre do contra, quando todos estavam a favor e por estar a favor, quando todos os outros estavam contra.

E para todas as suas posições tinha argumentos válidos e coerentes ou não fosse ele, por formação, um jurista.

O meu amigo A. é o exemplo perfeito de como a idade destrói as nossas esperanças e acima de tudo as nossas lembranças.

Tentamos ajudá-lo, incentivá-lo, animá-lo, mas a senelidade parece ter ganho alguma vantagem.

Infelizmente!

A idade não conta!

Fui ao supermercado comprar uma couve-flor para o meu almoço. Escolho-a, coloco-a num saco e dirigo-me à caixa onde já se encontra um homem que percebo que tem alguma idade.

A canadiana está encostada ao pequeno balcão que também tem uma série de compras. Aproximo-me, mira-me e percebe que só tenho a couve-flor para pagar. Entabulámos então este diálogo:

- Passe para a frente. Só tem isso.

- Deixe estar. O senhor está à minha frente.

- Não senhor, passe se faz favor. Eu tenho muito tempo.

- Também eu - respondi.

- Mas passe que eu tenho muito tempo - insistiu.

Tentando não desiludir o idoso, passei à frente dele e aguardei que a cliente, agora à minha frente, pagasse as compras. Entretanto:

- Já sou velho e tenho muito tempo - continuou o velhote.

- Não parece...

- Se chegar amanhã (estranha forma de contar o tempo!!!) faço 95 anos.

Admirei-me da lucidez e retorqui:

- Bonita idade...

- É não é? Mas sabe do que tenho pena ao ser assim velho?

- Não imagino...

- É disso aí...

E apontou com o queixo a jovem que estava na caixa.

Só pude rir. Com 95 anos e o que aquele idoso mais sentia falta era da companhia feminina.

Malandreco...

A nossa idade

Hoje fui mandar cortar o meu cabelo. Estava eu já sentado e envolto em panos e toalhas quando reparo, através do enorme espelho, num casal que se aproxima do barbeiro.

O homem tem evidentes dificuldades em andar tal o conjunto de doenças que deve ter atravessado. Não fala pois a sua traqueia foi substituída por um buraco. A senhora que o acompanha tem um ar mais jovial e mais desembaraçada. Pensei para com os meus botões: Pai e filha!

Puro engano. O casal entrou na loja para que o meu barbeiro cortasse o cabelo ao cavalheiro. Na conversa que se seguiu a senhora afirma que estão casados há 61 anos. Portanto eram marido e mulher sendo que ela parecia muito mais nova.

Como é hábito nestes lugares a conversa, seja ela qual for, é sempre interessante. E esta não o foi menos. A senhora diz que tem 86 anos e que trabalhou até aos 77. Relata que se farta de estar em casa, mas percebo que com um marido naquele estado não deve ser fácil libertar-se...

Depois avança com uma ideia curiosa: detesta estar na companhia de gente que só fala de doenças e desgraças. Achei simpática a visão que transmitiu e que vai de encontro ao que penso: a nossa idade não é aquele que o cartão de cidadão apresenta mas somente aquela que o nosso espírito mostra.

 

 

Tu cá, tu lá!

Era muito novo quando a estuporada da minha professora primária me proibiu de tratar os meus pais por tu. E de tal maneira foi incisiva que ainda hoje continuo a tratá-los por você!

Ao contrário de mim, os meus filhos sempre me trataram por tu, não sendo essa a razão para não me respeitarem.

Com o decorrer do tempo fui-me habituando a tratar os outros com quem convivo, seja no trabalho ou noutro local qualquer, de forma informal. E independentemente da idade. Da minha e dos outros.

Detesto por isso que me tratem por "senhor". Faz-me sentir mais velho, quando no fim de contas sou, interiormente, uma autêntica criança.

Deste modo, aqui na blogosfera, sempre que troco comentários com alguém mesmo que não conheça respondo logo na segunda pessoa.

Não vá algum comentador pensar que sou já um velho!

Saber ler... os outros!

Os anos que já vivi deixaram-me algumas certezas, não muitas!

 

Uma delas prende-se com aquele sentimento, totalmente falso, de que tudo podemos e de tudo somos capazes ou pior... que não necessitamos de ninguém. Não há receios, nem temores que nos desviem do nosso pensamento ou ideia. Cremos que tudo somos capazes, que tudo de adapta à nossa vontade.

Um erro clamoroso!

Independentemente da educação, estado social, capacidade financeira ou mérito académico, há quem alimente a ideia de ser... omnipoderoso! Porém o destino, fortuna (ou a falta dela!!!), o mero azar ou para os mais crentes a vontade de Deus ou Karma, podem revirar a vida de qualquer um de pernas para o ar. E o que num determinado instante era pujança, fervor, tenacidade transformou-se em ruína, dúvida, incerteza.

É no preciso instante que adquirimos esta incerteza do nosso futuro, até então certo, é que percebemos quão frágeis e vulneráveis nos tornámos.

Mas nem tudo é negativo nesta (nova) postura. Aprendemos a defendermo-nos, passamos a ser mais calculistas, objectivamente olhamos o Mundo com outros olhos.

E tentamos ensinar…

… que o médico necessita do doente como este do médico;

… que o patrão só é por ter empregados e precisa deles e vice-versa;

… que todos nós, duma forma ou doutra, não vivemos isolados.

 

A alegria de podermos dar a mão, ajudar o próximo, nem que seja com um mero sorriso, faz com que eu indique mais outra das minhas certezas: a felicidade é naturalmente um sentimento tão subtil que se pode achar no gesto mais simples e mais singelo do ser humano!

 

Basta saber ler o coração do outro!

 

 

Breve relato duma vida!

Nasceram pequenos e rezingões e a requererem permanentemente a nossa presença e atenção. Nesse tempo dependiam exclusivamente de nós. Roupa, banho, limpeza, até brincadeira cabia-nos totalmente.

Dia a dia, semana a semana, mês a mês cresceram e a escola passou a ser uma novíssima etapa. O frio, chuva, calor ou vento nada impediu de aprenderam as primeiras palavras e números.

Surgiram outras escolas, outros desafios com sucessos e naturalmente alguns insucessos. Por fim a universidade, o curso, a faculdade e os seus enormes receios. Fundados!

Cursos enfim terminados, descobrimos que as crianças haviam deixado de sê-las para se tornaram homens. E um dia sairam por aquela porta muito especial a que chamamos "vida". A mesmo que nós também em tempos atravessámos...

Iniciaram o seu próprio vôo, quais pardais a saírem do ninho.

A casa está agora vazia ou quase... Já não há roupa espalhada, computadores ligados, papéis por tudo quanto é lado, luzes acesas... Tudo está no mesmo local onde deixámos de manhã. Vá-se lá saber porquê os objectos deixaram de se mover!

Olhámo-nos ao almoço. A mesa, antigamente para quatro só tem dois!

Com (incontida) tristeza percebi que este foi verdadeiramente o meu primeiro dia de velhice!

Falta saber até quando...

 

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