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LadosAB

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Será que só eu é que assisto… (V) 

São quase cinco da tarde. Caminho apressado para o hospital onde me aguarda um exame perto da hora do chá inglês. Desde o metro ao portão de entrada são trezentos metros de um passeio largo.

Cruzo-me com diversas pessoas anónimas e de (quase) todas as idades. O sol bate forte mas hoje até nem está muito calor. Olho em frente quando me apercebo de uma idosa que agarrada a uma bengala caminha em sentido contrário do meu muito devagar, denotando esforço.

No instante seguinte percebo que cambaleia e ameaça cair. Estou a meia dúzia de metros da anciã… nem tanto! Temo que possa tombar e a minha reacção instantânea é correr ao seu encontro. Em boa hora o fiz porque a senhora larga a bengala e se não fosse eu teria caído com violência na calçada.

Não a deixo cair, amparo-a e dou-lhe a bengala. Logo uma jovem aparece junto de mim disposta a ajudar. Identifica-se como enfermeira do hospital que eu tinha como destino. Olho em redor e encontro uma parede pequena que serve às mil maravilhas para a senhora se sentar. Devagar, eu a jovem enfermeira, conseguimos que ela descanse.

- Como se chama? – pergunto!

- Verónica…

- Que idade tem? – pergunta a enfermeira.

- Oitenta e nove…

Aqui olhámos um para o outro e a pergunta estava lá… Todinha…

- Como era possível que esta senhora ande em Lisboa completamente sozinha?

Continuou o breve interrogatório:

- Donde vem e para onde vai?

Numa voz sumida foi respondendo:

- Fui a uma consulta ao hospital e agora vou ali apanhar o autocarro que pára à minha porta.

- Não tem ninguém para a acompanhar: filhos, netos… alguém?

Olhou-nos a ambos e eu percebi naquele olhar, que jamais esquecerei, o verdadeiro sentido da solidão. Entretanto a enfermeira aproveitara a mão dada à idosa para lhe medir a pulsação. Apercebi-me pelas vezes que olhava o relógio. Finalmente respondeu:

- Estão todos muito longe.

- A senhora tem uma pulsação muito fraca. É melhor vir ao hospital para ser observada.

Num gesto que pareceu repentino pretendeu levantar-se, mas nós impedimo-la. Logo no momento seguinte soou qualquer coisa que identifiquei como sendo um telemóvel. Da idosa que também ouvira. Da mala, tão velha quanto a dona, Verónica retirou o aparelho, olhou o monitor e disse:

- É o meu filho.

Antes de falar, a enfermeira virou-se para a doente e perguntou mais uma vez, enquanto retirava o aparelho das mãos da senhora:

- Posso falar com o seu filho?

Não resistiu. A jovem afastou-se de mim enquanto falava para alguém. Não foi necessário um minuto para voltar a entregar o aparelho à dona:

- Falei com o seu filho… Ele está a sair do golfe e vem já buscá-la.

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