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Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Espaço de reflexões, opiniões e demais sensações!

Cidadania

Lisboa, 8 da manhã, um trânsito diabólico.

Filas e mais filas. Os carros vão cuspindo fumos e poluição.

No rádio toca a música.

O vizinho da viatura do lado deve estar a ouvir a mesma, porque agita a cabeça ao ritmo da música que oiço.

O sinal vermelho. Os dedos a tamborilar no volante, anciosos.

De súbito alguém abre a porta do carro e nesse mesmo instante despeja o cinzeiro repleto de beatas no chão negro.

Fico sem pinga de sangue. No século XXI ainda há quem cometa estas barbaridades. Não bastava o fumo que debitam dos pulmões e mais tarde as doenças que vamos ajudando a minorar por causa do tabaco, ainda por cima jogam na rua à frente de toda a gente o lixo que exibem nos seus carros.

Sei que quem o fez jamais lerá estas linhas. Mas fica aqui a minha indignação perante tamanho acto de tão má cidadania.

Não há Europa que salve esta mentalidade terceiro mundista.

Infelizmente.

Depois há quem se admire de haver 60 % de abstenção nas eleições europeias...

O avô, o pai e o neto

 

Não gostava da alcunha com que o povo o tinha brindado. De todo. Mas ela correspondia à sua forma de estar na vida. Ernesto de nome, todos o conheciam como o "Despachado". Desde criança, sempre que alguém lhe pedia alguma coisa ele não parava enquanto não fizesse o que lhe tinha pedido. Já homem, quando os outros começavam a azeitona, já ele colhera a dele. Casou já tarde, mas em pouco mais de dois anos a Zélia pariu três filhos.

- Estou despachado! - Concluía com ar triunfal.

Mais uma razão para o epíteto.

Certa madrugada fria e ventosa de inverno o aldeão aparelhou a burra, com albarda, apertou-lhe a cilha, subiu para o lombo do animal e partiu para a feira de S. Sebastião, a três léguas de distância. Havia muitos anos que Ernesto não fazia aquele percurso a pé ou mesmo a cavalo. Geralmente encomendava pelo Tó Pisco as sementes ou alguma alfaia que pretendia. Mas aquele falecera entretanto e ele não confiava em mais ninguém. Assim, era a sua vez de partir em busca das sementes desejadas. Até à estrada velha era fácil, o pior seria depois. Uma quantidade de veredas podiam levá-lo para longe do seu destino. Mas fiou-se na sorte e pôs-se a caminho.

Ao longe o dia parecia querer nascer. A Lua ia aos poucos desaparecendo. Ouvia-se apenas os sons dos cascos do animal a resvalar nas pedras soltas. Um par de horas mais tarde, já a madrugada dera lugar a um sol arrepiado e tímido, quando Ernesto chegou ao fim da estrada velha. A vereda subia agora, até ao cimo da colina. O aldeão duvidou que aquele fosse o caminho certo mas como tinha pressa optou em escalar a serra. No topo deu com uma bifurcação:

- E agora?

O dilema invadia o seu pensamento. Finalmente optou por um dos trilhos e abandonou-se à sorte. A estrada parecia agora descer quando de repente deparou com um ancião, de longa barba branca, vestes rasgadas, chapéu roto e que chorava. As lágrimas caiam-lhe pelo pouco espaço da face e perdiam-se nos tufos de pelos brancos e cinzentos. Sentado numa pedra que dividia a estrada. Ernesto apenas observou:

- Estranho!

Porém nem sabia se a estranheza era de ver ali o homem ou de ele estar a chorar como se fosse uma criança. Aproximou-se devagar e perguntou:

-.Posso ajudá-lo?

O outro olhou-o através dos olhos rasos de lágrimas e exclamou em tom calmo:

- Não obrigado isto já passa.

Ernesto duvidava e queria saber mais:

- Mas o que lhe aconteceu para estar assim a chorar?

O velho sem pestanejar, respondeu:

- Foi o meu pai que me bateu...

Aquela era a última resposta que Ernesto esperava ouvir. Primeiro engoliu em seco mas por fim lançou nova questão:

- Mas que idade é que o senhor tem?

- Eu? Tenho 100 anos!

Aquela resposta era no mínimo imprevisível.

"Está maluco - pensou - ainda por cima estou aqui a dar-lhe conversa e acabo por chegar tarde à feira". Mas a curiosidade mordia-lhe o pensamento:

- E onde está o seu pai?

- Ali ao cimo desse carreiro - e apontou para um caminho entre carrascos e giestas.

Sem dizer mais nada o viajante tocou a burra na direcção do caminho apontado e subiu o estreito trilho até que encontrou outro ancião aparentemente ainda mais velho que o primeiro que sentado no que restava de um pinheiro traçava no chão riscos e mais riscos, com a ponta de um cajado negro e puído.

Quando notou no homem puxando uma burra pela arreata, levantou os olhos e perguntou-lhe:

- Quem é vossemecê?

O camponês nem lhe respondeu lançando-lhe pelo contrário uma questão:

- Você é o pai daquele idoso que encontrei lá em baixo?

- Idoso sou eu... – respondeu de mau modo – Mas sou o pai dele, porquê?

- Porque encontrei-o a chorar...

- Hum! Então não querem lá ver o fedelho? O cachopo foi mal-educado para o avô e ainda por cima chora como se fosse um bebé.

Ernesto nem queria acreditar. Avô? Ainda havia um avô. Então que idade teria este homem? Perguntou-lhe então:

- Mas que idade tem?

- Eu tenho 200 anos.

Impossível haver alguém com aquela idade. Não podia ser. E ainda alguém mais velho. Era claramente impossível. Todavia a tal curiosidade que dera início a tudo, acicatava-o uma vez mais. E aceitando o desafio voltou-se para o ancião e afirmou como adivinhasse:

- E o seu pai está por ali - e apontou um caminho estreito entre moitas.

- Está sim, ao fim desse carreiro está uma casa velha. É dele...

- Então vou até lá.

- Vá, vá... - e continuou a fazer riscos no chão com o velho cajado.

O caminho descia agora por entre a folhagem verde. No chão podiam-se notar tufos de giz-barbeiro com as bagas vermelhas. Num instantes desceu o caminho até à casa. Esta era velha e encontrava-se em muito mau estado. De um lado o telhado desaparecera por completo, do outro havia cobertura mas o frio entrava na mesma.

A porta quase tão velha cornos os anciãos estava escancarada, mas mesmo assim bateu:

- Posso?

De dentro ouviu uma voz trémula que convidou o estranho:

- Entre!

Ernesto foi penetrando na casa pobre. Miserável descreveria melhor o que via. No canto numa lareira rústica ardia um pequeno borralho que mal dava para aquecer as mãos. Ao meio uma mesa e duas cadeiras tão velhas quanto o dono. Não se vislumbrava quaisquer pratos ou talheres que usassem para se alimentarem. Finalmente dirigiu-se ao idoso:

- O senhor é que é o pai daquele ancião que encontrei lá cima?

O homem respirou fundo e respondeu:

- Sou sim senhor. Porquê?

O viajante nem sabia o que dizer ou pensar. Primeiro fora o neto, depois o pai e agora o avô, todos eles muito idosos e duma pobreza imensa.

- O seu neto mandou-lhe um recado - inventou de repente.

- Esse ingrato!

- Ingrato?

O idoso finalmente olhou-o de baixo para cima e devolveu:

- Sabe como é a rapaziada nova, não respeita ninguém! Nem a um velho como eu...

O tema da conversa desviava-se no sentido que Ernesto desejava. Aproveitando a deixa, continuou:

- Que idade tem?

- Eu já nem sei. Pr’aí uns trezentos anos.

O coração do camponês quase que parou. Respirou fundo ganhou coragem e abordou-o com mais questões? - Como é que chegou a essa idade?

- Foi fácil, nunca me ralei com nada.

- Como assim?

- De Inverno fico deste lado, no verão do lado de lá. E os rapazes sempre vão arranjado algo irmos comendo...

- E assim chegou a essa idade?

- Pois é! Sem nunca me preocupar com nada...

"O despachado" abria a boca num espanto que não sabia medir. Olhava o ancião de cabelo ralo mas longuissíma barba branca. Magro, quase esquelético com a única preocupação de viver o momento. Nada mais contrário à sua propria vida vivida num ápice e sem chama.

Ernesto desculpou-se:

- Tenho de ir...

- Então e o recado do meu neto?

- Ele apenas disse que estava arrependido - mentiu.

- O costume! Fazem o mal e depois arrependem-se...

- Tenho de ir. Até outro dia...

- Até outro dia. E viva devagar o seu dia...

O aldeão partiu finalmente a caminho da feira. Os anciãos haviam desaparecido e a estrada já se encontrava repleta de viajantes. No silêncio dos carreiros palmilhados "Despachado" revia com invulgar emoçãoe estranheza os últimos acontecimentos e meditava... meditava e caminhava... caminhava... devagar... devagar.


José da Xã

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